Cinefilia 14: Haneke e seus "Funny Games"

quarta-feira, 4 de maio de 2011
Postado por Selton Dutra Zen


Vários diretores optaram por, ao longo de suas carreiras, refilmar seus próprios filmes, como é o caso de Alfred Hitchcock que em 1934 dirigiu "O Homem que Sabia Demais" e em 1956, 22 anos depois, o refilmou em um filme de mesmo título. Outros foram mais além, decidiram refilmar seus próprios filmes passo a passo, plano a plano de forma idêntica ao original. Esse é o caso de George Sluizer que refilmou "O Silêncio do Lago", e de Michael Haneke, que refez seu projeto intitulado "Violência Gratuita" ("Funny Games" nos títulos originais).

Em 1997, Haneke filmou, na Áustria, sua primeira versão desta análise chocante da sociedade atual, na qual dois jovens prendem uma família em sua própria casa e iniciam jogos letais onde o perdedor, obviamente, morre e o vencedor sai impune.

Dez anos depois, em 2007, Michael refilmou "Violência Gratuita", plano a plano, simplesmente recriando o mesmo filme, com uma diferença: agora ele filmava nos E.U.A, com um elenco de personalidades fílmicas um tanto conhecidas como Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt.

Ambos os filmes deixam incógnitas quando acabam: O que motivou os dois jovens a serem tão brutais e praticarem este tipo de violência? Simplesmente diversão? A que nível nossa sociedade chegou? Questões bem parecidas com as levantadas por "Laranja Mecânica".

Mas porque Michael Haneke decidiu regravar seu próprio filme de maneira tão literal? Alguns dizem que foi uma tentativa de fazer um filme de apelo mais popular, para lucrar, isso explica o porquê dos atores um tanto conhecidos no elenco. Mas levando em conta que Haneke em momento algum de sua carreira fez filmes se importando em como o público vai recebê-lo, esta hipótese pode ser descartada. Porque então? Ou melhor, em uma visão macro, porque diretores decidem refilmar seus próprios filmes de forma idêntica?

Mas comparando as duas versões desta história, posso afirmar com certeza que a primeira é a melhor. É na verdade, uma obra-prima! Por utilizar atores praticamente desconhecidos, acrescentando mais veracidade, a tensão e a revolta são muito maiores do que na versão de 2007, pois não sabemos quem são as pessoas sofrendo na tela, são completos desconhecidos, já na refilmagem, sabemos quem é Naomi Watts, Tim Roth ou Michael Pitt, e isso acaba, no final das contas, exterminando grande parte da veracidade que a trama exige. Mesmo assim, este último também acaba se revelando um filme excelente!

Sou fã de Haneke, reconheço seu pensamento pessimista sobre a humanidade impregnado em seus filmes, e em "Funny Games" esta característica atinge o auge! Além do pessimismo, outra característica presente nas duas versões é a ironia, que perdura do início ao fim das projeções. Constantemente o personagem principal (o jovem que comanda o jogo) olha diretamente para o público e conversa conosco! Estes toques sutis fazem toda a diferença.

Além disso, as duas produções são tecnicamente impecáveis (como de praxe de Michael), possuem um roteiro maravilhoso, também escrito pelo diretor e uma mise en scène muito bem planejada e enquadrada pela fotografia magistral!

Se você procura um tipo de diversão que faz pensar, os dois filmes "Violência Gratuita" são um prato cheio para você!

2 comentários:

Kahlil Affonso disse...

Adoro as 2 versões!!

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Maxx disse...

Dá uma olhada no meu blog, e caso tenha interesse de parceria é entrar em contato. Abç.

http://telecinebrasil.blogspot.com/