375. O Segredo das Águas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
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(Obra-prima)

São muito poucos os cineastas dedicados ao cinema primordialmente sensorial na atualidade e destes, menor ainda é o número dos que realmente obtêm êxito. Naomi Kawase se conserva como um dos raros nomes de respeito neste contexto não apenas por realizar trabalhos de extrema delicadeza e sensibilidade, mas também por toda a homenagem que presta ao próprio país. Toda sua carreira foi dedicada a engrandecer a cultura japonesa, e não necessariamente torná-la palatável (fornecer explicações), mas elevar à máxima potência o conceito de união do arcaico (todas as lendas e os hábitos antigos) com o moderno (as relações humanas, o sexo e a selva de pedra). Surge dai sua marca registrada que, pessoalmente, tanto me agrada: a interação entre o ser humano e a natureza. E em "O Segredo das Águas" (2014), seu mais novo filme, isto se faz mais claro que nunca.

A lógica é a mesma de seus filmes anteriores. Um fiapo de trama surge como vetor para uma análise de como nós, seres viventes, nos conectamos com a dinâmica da natureza. Embora aqui haja uma linha narrativa mais concreta. Aqueles que nunca tiveram contato com o cinema de Kawase podem encontrar neste o longa ideal para ingressar no universo da cineasta. O drama começa com a aparição de um cadáver nas águas do mar de uma praia em uma ilha japonesa, cuja minúscula população subsiste em grande parte das riquezas proporcionadas pelo mar e pelas belezas naturais do local. E de alguma forma este incidente altera a rotina de um jovem adolescente que vive a maior parte de seu dia sozinho - sua mão se apresenta como uma figura ausente. Sua realidade individualista é mudada pela presença de uma garota apaixonada por ele que, aparentemente, não é correspondida. O longa se dedica, então, a seguir o dia a dia dos dois jovens enquanto estes aprendem a amadurecer sob a luz de diversas mudanças em suas vidas e na forma de enxergarem o mundo. 

Ela possui um contato total com a natureza. O mar é como sua segunda casa, um lugar de libertação, ela se sente livre e dona de seu próprio mundo. Filha de uma xamã, aprendeu com a mãe o poder da natureza e o quanto esta pode se relacionar com o comportamento humano. O garoto, por sua vez, teme o mar e o encara como uma criatura viva, prestes a engolir tudo que se oponha a seus limites. E de certa forma as duas visões se completam, já que a obra pretende justamente abordar o mar como uma entidade viva, capaz de dar e coletar tudo outra vez, capaz de conceder vida e de tirá-la. E por mais que outros elementos naturais se fundam à ideia, o foco se concentra sempre no mar. É como se "O Segredo das Águas" complementasse uma ideia construída por Kawase em suas obras-primas anteriores, "A Floresta dos Lamentos" (2007) e "Hanezu" (2011). No filme de 2007, o foco parece ser o ar, o modo como os dois personagens, perdidos na floresta, são manipulados e surgem tão desprotegidos sob a presença do vento e a forma sutil com que suas vidas vão seguindo como que em lufadas do destino parece ressaltar a ideia. Quatro anos depois, no longa de 2011, Kawase discorre sobre a importância da terra na vida humana e a própria trama se revela muito mais árida e crua, que deixa um gosto estranho com seu encerramento pessimista. "O Segredo das Águas" se conserva na mesma linha. E nunca antes a ideia da natureza influenciando o estado emocional dos personagens (e vice-versa) se fez tão óbvia em sua filmografia. Basta notar que, conforme a vida dos protagonistas vai se conturbando, mais e mais o mar vai se tornando revolto, assim como o vento soprando mais forte, até culminar na tempestade do terceiro ato.

Mas a agressividade natural se contrapõe à sutileza da construção psicológica dos protagonistas - algo que a diretora se especializou ao longo dos anos. Tudo é dito nas entrelinhas. O espectador de fato não consegue identificar os sentimentos do garoto para com sua companheira e passa a analisar cada uma de suas atitudes como se tentando entender a confusão de seu caráter. Em raros momentos podemos vê-lo rindo ou mesmo externalizando algum tipo de emoção mais concreta que não seja o tom indiferente de seu olhar. E nem precisa de fato demonstrar o que sente... a expressão da natureza já traduz tudo que se possa precisar compreender.

E assim como a evolução das personas, também é a técnica: de um extremo bom gosto, os elementos parecem se fundir de forma homogênea e inseparável. Tudo acompanha um mesmo patamar de qualidade em sintonia. A começar pela fotografia que opta mais pela vitalização e embelezamento das cenas filmadas que pela apelação de um clima específico. Assim, as tomadas abertas reservam panoramas belíssimos que engrandecem ainda mais a grandiosidade e o poder do mar e dos elementos sobre a ilha e entrega cenas de extrema inteligência, como toda a sequência em que a mãe da protagonista retorna o hospital e sua cama é instalada em um ambiente onde esta possa observar a figueira deitada em seu leito. A reação da mulher diante do esplendor natural que enxerga é um exemplo onde a imagem adquire um coração à parte, como se fosse viva. Notem como, nesta sequência, a câmera adota angulações geralmente baixas (pequenez) ou planos americanos (igualando a árvore à mulher), de forma que uma criatura se funde como a outra através da mão estendida da mulher.

E obedecendo à mesma funcionalidade da fotografia, a mixagem de som cuida de transformar sons naturais em quase personagens, enquanto a montagem crua e precisa economiza em rodeios e aplica cortes precisos em momentos exatos, de onde vem a força crua da narrativa. 

No fundo, "O Segredo das Águas" não passa de um roteiro sobre a descoberta adolescente, Um romance entre duas criaturas afetadas pela fase conturbada da vida. Se descobrindo como seres humanos e nem sempre gostando do que descobrem ser. O que por si só é promissor de nascença. Mas a grandiosidade e o tempero extra são créditos de Naomi Kawase, que neste seu mais novo projeto se mantém fiel à sua estética e entrega uma obra de beleza considerável, humana e cultural, como sempre fez e parece que sempre assim fará. Apresentou um dos trabalhos mais lindos do ano, assim como um dos melhores longas de 2014. É uma pena que muitos cinéfilos ainda se fechem ao trabalho autoral da diretora japonesa e não deem o crédito necessário à mulher: uma das melhores realizadoras (es) da contemporaneidade. 

374. Interestelar

quinta-feira, 13 de novembro de 2014
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(Obra-prima)

Escrever é uma arte e, como tal, exige demais do campo dos sentimentos. Claro, é através da escrita, do som ou da imagem que nos desconstruímos e expressamos tudo o que há de melhor ou pior dentro de nós mesmos – não é à toa que a melancolia sempre foi ótima fonte de inspiração. E justamente por esse contato íntimo que conservo com a escrita que me senti, confesso, acuado em escrever sobre “Interestelar” (2014). Conferi o longa em seu fim de semana de estreia mas demorei para comentá-lo em texto devido uma alienação gigante que senti ao seu encerramento principalmente por não saber como transpor o que sentia em palavras. O novo longa do inglês Christopher Nolan é muito mais letárgico e sentimental do que eu realmente estava preparado para encarar – e me senti distante, transitando por dimensões ainda não concebidas, com dificuldade de voltar: “Interestelar” me conduziu a uma viagem tão espiritualmente devastadora e construtiva como há muito não via em um filme de ficção.

Conduzindo a épica jornada está Cooper, engenheiro frustrado e ex-piloto espacial que é chamado a liderar uma expedição com intuito de estudar outros planetas possíveis portadores de vida, já que a Terra e toda sua população está à beira do colapso e extinção. Para tanto, devem penetrar o âmbito desconhecido de um buraco negro, suposto portal para outra galáxia. O drama é que Cooper pode nunca mais voltar a ver seus filhos, devido a relatividade de tempo e espaço existente em domínios extra-humanos. Com isso, o acerto de Nolan começa logo no casting, ao confiar o protagonismo a Matthew McConaughey, que vem se provando cada vez mais habilitado e maduro para tomar as rédeas de personagens muito mais complexos, desde 2011, tendo como exemplo longas como “Killer Joe”. Surgido e estabelecido no mundo das comédias românticas, sempre como o personagem encarregado de arrancar suspiros da plateia feminina, Matthew, aqui, encabeça um homem fragilizado pela perda dolorida de sua mulher, pela frustração de viver deslocado em uma época e ambiente que não contemplam a criatividade intelectual de sua formação, além de lutar diariamente para o sustento de seus dois filhos ainda menores. O que mais impressiona na concepção do personagem é seu metamorfismo durante a projeção. Não era para menos, após presenciar situações inomináveis, o mínimo a se esperar de seu comportamento é um amadurecimento gritante – justamente o que acontece. Afinal, há uma jornada muito mais espiritual que técnica acontecendo. 

Fazem parte do elenco, também em performances notáveis, as queridas da américa Jessica Chastain e Anne Hathaway, pauteadas por um Michael Caine já em idade avançada. Todos em um entrosamento capaz de levar diversas cenas nas costas sem grandes dificuldades.

Mas, dentre tudo, é necessário deixar a racionalidade um pouco de lado (embora esta se faça fortemente presente ao longo de toda a trama) e contemplar a conquista do próprio Nolan em um âmbito inédito ao cineasta. Ao tratar de questões não mais puramente frias e teóricas, o diretor abre espaço para mostrar seu lado que até então tinha permanecido escondido: a expressão dos sentimentos. Pela primeira vez, Christopher prova ser um realizador extremamente hábil no domínio dos sentimentos e fazer com que estes alimentem a narrativa de forma tão significativa que se torna impossível o não envolvimento do espectador na jornada interestelar. Seus outros longas, embora sejam trabalhos notáveis, ainda são frios e carecem de um maior engajamento humano. “Interestelar” surge justamente para mostrar o contrário e de forma não tão fácil: extrair sentimentos de uma plot por natureza extremamente técnica e racional. Não que a racionalidade tenha sido abandonada. Pelo contrário, ela se faz notar deveras. A diferença é que há espaço narrativo para que a frieza da racionalidade ande de mãos dadas com o aconchego dos valores humanos. E ainda se faz mais: Nolan cria a sensação de que sem um, o outro não existiria.

Como se não bastasse reunir duas qualidades escassas no cinema contemporâneo, fazer pensar e fazer sentir, o diretor ainda reserva um truque na manga: se apoiar em um dos maiores clássicos da história do cinema, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de forma a tentar homenagear a figura de Kubrick e seu legado inestimável. E o que conta como fortaleza é a atitude de se basear em “2001...” não como fonte de consulta, mas como fonte de inspiração. Dessa forma, o processo se torna muito mais de homenagear que de aplicar a formula de grande sucesso do filme de 68. E quem me conhece, sabe de minha devoção ao filme de Kubrick – de longe, meu filme favorito e, para mim, o longa mais próximo a perfeição já concebido e executado no cinema. Desta forma, surge como uma honra imensa de minha parte presenciar uma obra tão importante tratada com tanto zelo e igual admiração. O cuidado de Nolan ao reprisar algumas trucagens empregadas por Kubrick na produção original são destacáveis. Notem o formato do robô que auxilia os astronautas na jornada interestelar, muito semelhante ao de um monolito, ou mesmo a forma de tratar o espaço como um vácuo, desprovido de som. E nisso a mixagem sonora acerta justamente por descobrir e desconstruir os acertos de Kubrick e aplica-los, quase como um estudo, de forma discreta, porém sempre eficiente. O uso da trilha sonora, em “Interestelar”, remete muito ao clássico, com direito a composições mais graves e até trechos eletrônicos simulando orquestras ou composições eruditas. Há uma tentativa de modernizar – que obtem muito êxito.

Ainda nesta linha de pensamento, notem como os trajes espaciais diferem bastante das genéricas vestimentas dos astronautas dos filmes de ficção atuais, os planos com enquadramento baixo (com a câmera colada às latarias) adotados pela fotografia e mesmo o design das naves (em especial, a estação que permanece orbitando e transportando a nave dos protagonistas) se aproximam consideravelmente da criação kubrickiana, ainda que sempre com a marca do realizador. Prova disso é a montagem impecável, marca registrada de Nolan, que engrandece a inteligência da narrativa sem se mostrar carregada ou exagerada. É interessante como Nolan usa o contexto de relatividade temporal como base de sua própria lógica de edição: se apossando de uma trama complexa e extensa, o espectador pode notar o esmero dos envolvidos em retratar a trajetória completa em pouco menos de 3 horas (que, acreditem, passam voando). O truque para isso é justamente coordenar as duas realidades (terrestre e espacial) de forma a transmitir espaços de tempo variados, distorcendo literalmente a noção de tempo e espaço que o espectador possa vir a conservar durante determinadas sequências – algo que se revela um acerto extra no encerramento do filme. Assim, Nolan tem em mãos o controle total do tempo que precisa gastar para evoluir a narrativa da forma que bem entender. Prova disso é a brilhante sequência do pouso no primeiro planeta estudado, onde 1 hora equivale a 7 anos terrestres, na qual acompanhamos uma espécie de resumo das atividades ocorridas neste intervalo de tempo.

“Interestelar” divaga muito sobre isso, aliás. A noção do tempo e como este, por ser efêmero, pode destruir vidas como se fossem insetos. Nós vivemos uma pequena parcela da idade da Terra e nos enganamos imaginando que somos o centro do universo. A mensagem é maior do que se pensa e maximiza ainda mais a jornada dos heróis porque vemos um objetivo transcendental sob a roupagem de estória apocalíptica. Vemos o amor tratado a níveis intergalácticos, o auto sacrifício em função de um bem maior e comunitário.

Enfim, foi “Interestelar” que me tirou do ostracismo, me impulsionando a eternizar o efeito desta jornada em palavras. Poderia ter comentado ainda da qualidade dos ambientes criados pela direção de arte (destaque, por exemplo, ao primeiro planeta explorado, totalmente composto de água, que exprime uma sensação de solidão existencial gigante, além de confusão psicológica igualmente contundente). Poderia ter abordado toda a sequência da sucção pelo buraco negro e o brilhante design de produção do ato final, a forma de transparecer algo inconcebível a nós, seres limitados, através de imagens. Mas escolhi me ater ao que muitos provavelmente vão esquecer em suas análises: a temática sentimental. E me foco nisso por dois motivos: o primeiro seria a demonstração de que seu famigerado diretor consegue, sim, dar o recado completo em uma trama essencialmente sentimental. E, principalmente, porque “Interestelar” nos reserva um gosto nostálgico do que um dia foi o universo da ficção científica: uma oportunidade de imaginar uma hipótese (nem tanto) irreal e utiliza-la como análise social contemporânea. Estou certo de que esta não apenas é uma das maiores obras-primas do ano (se não a maior), mas também um dos mais memoráveis filmes de ficção científica pós anos 2000.

Gênero: Ficção Científica
Duração: 170 min.
Ano: 2014