368. Mamá

terça-feira, 7 de maio de 2013
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(Bom)

Há mais de um ano atrás, sob indicação de uma querida e confiável amiga minha, tive contato com um curta curioso. Deveras desconhecido pelo público cinéfilo e médio, era uma surpresa que ainda continuasse no anonimato. Usando e abusando de efeitos práticos, estética obscura e fotografia angustiante, "Mamá", em seus apenas 3 minutos, aterrorizava mais que muito longa de terror dos últimos anos. Pois bem, não demorou muito para que o potencial do curta-metragem fosse garimpado e transformado em longa, pautado pela produção de Guilhermo del Toro e dirigido pelo mesmo diretor do minúsculo filme.

Usando a "trama" (se é que havia uma) do curta como pedra angular, o roteiro expande a narrativa para que a história renda os minutos-padrão de um longa comercial. Agora, somos remetidos à origem das duas meninas protagonistas de "Mamá" original. Órfãs de mãe, as garotinhas são capturadas pelo próprio pai e, após um acidente, se refugiam em uma cabana no meio da floresta. Lá, o pai é morto por uma criatura extra-humana (Mamá) que decide tomar conta das garotas. Acontece, porém, que as meninas são resgatadas da floresta e adotadas por seu tio (junto de sua namorada).  Mamá, naturalmente, volta para resgatar suas amadas "filhas". 

Um dos motivos pelos quais decidi assistir a "Mamá" foi para complementar minha experiência com o curta. Entender um pouco mais daquele flash doentio na vida das duas irmãs. Quem e o que é Mamá? Por que estaria cuidando das duas crianças? Qual a explicação de sua existência? Essas incógnitas, como não poderia deixar de ser, são respondidas de prontidão pelo longa. Até então, era o mínimo a ser feito, já que o motivo da expansão de um filme de 3 minutos para 100 era esse. Contudo, esta mais nova produção de del Toro vai um pouco mais além. Lançando uma homenagem clara aos contos de fada (óbvia influência do produtor), cria uma espécie de jogo de referências e alusões aos mais diversos clássicos infantis - que aqui não soam nada infantis, vale ressaltar. A cabana abandonada na floresta, o "Once upon a time..." na abertura do filme, Mamá se escondendo dentro do guarda-roupas e todo o clima outonal cuidam de evocar uma atmosfera de fábula, há tanto perdida. 

Infelizmente, esses clichês existentes pelas referências aos contos acabam por deixar de ser apenas relacionados às fábulas e passam a contaminar toda a projeção. Alguns sustos são óbvios, algumas reações genéricas e o desenrolar mais típico e banal, impossível. "Mamá" não nos poupa de um desfile de personagens já conhecidos pelo público, com a mesma roupagem de sempre. Há a mulher determinada que luta com todas as suas forças por um amor que descobre ser muito forte ao longo da projeção, há o psicólogo interessado em investigar a história das garotas (abrindo margem para um flashback esclarecedor gritante) e também a parente preconceituosa que sempre chega ao local errado, na hora errada. Não obstante, o longa também aposta em sequências batidas ou, pelo menos, já utilizadas em outros filmes, como a cena do psicólogo na cabana (a luz da câmera fotográfica como iluminação de cena foi empregada recentemente no terror uruguaio "A Casa") e até as próprias gravações das consultas das meninas, também com o psicólogo.

Todavia, mesmo diante de diversos deméritos, gostei do filme. O diretor é hábil ao evocar um clima de constante mistério e costurar as cenas de forma a tornar tudo fluído. Isso, claro, auxiliado pela eficiente fotografia, que acrescenta um tom de obscuridade a mais à trama já macabra, além de optar muitas vezes por travellings de câmera mais fluídos e, bem... flutuantes (literalmente!). Além do mais, o time de atores convence. Chastain, uma das atuais queridinhas do Oscar, está bem, embora nada fagocitável. Assim, quem leva o filme nas costas é a dupla de garotas que encarnam as irmãs protagonistas. O maior destaque mesmo vai para a mais nova, que com alguns de seus olhares e trejeitos, consegue aterrorizar mais que a própria Mamá em si. Suas aparições em cena, confesso, me deixaram mais tensos que as sequências com a própria criatura.

E por falar na criatura, esta talvez seja o maior divisor de águas que se tem sobre este projeto. Enquanto Mamá surge como uma criatura bem genérica em aparência (nada que já não se tenha visto por aí), é nos trejeitos e grunhidos que realmente perturba. Neste quesito, a edição de som merece nota pela mixagem grotesca dos ruídos guturais emitidos pela criatura. Infelizmente, para que eles funcionem integralmente há de se fechar os olhos e apenas imaginar as dimensões da Mamá, pois se você arriscar uma olhada, sua sensação de terror se esvairá. Sua aparência é simplória e seu design preguiçoso e nada criativo. Sorte que até aparecer completamente na película, consigamos absorver toda sua carga fantasmagórica.

Assim, "Mamá" não é uma completa decepção, embora fique muito aquém, seja em qualidade ou impacto de terror, do curta originário. Funciona como passatempo e possui alguns excelentes momentos - inclusive de originalidade, embora isso contradiga um dos parágrafos acima -, mas tenho certeza de que não irá traumatizar tanto quanto os 3 minutos originais. Pelo menos a mim não traumatizou.

Gênero: Terror
Duração: 100 min.
Ano: 2013

367. Um Alguém Apaixonado

segunda-feira, 1 de abril de 2013
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(Obra-prima)

2012 sem dúvidas foi um dos melhores anos cinematográficos do século XXI. Tivemos Haneke, Tarantino e Wes Anderson lançando alguns de seus melhores trabalhos em anos. E com Kiarostami não foi diferente. "Um Alguém Apaixonado" é uma obra-prima completa, sensorial e reflexiva. Mesmo que a reflexão parta da experiência do próprio espectador, e não do filme em si. 

Abrindo com uma sequência de 15 minutos em um bar de alta classe, Kiarostami logo nos revela que seu mais novo longa irá seguir a sua linha habitual de cinema: sustentado em diálogos e manejando de forma magistral o ritmo lento. Em muitos aspectos pode-se traçar um paralelo com seu filme anterior, a também obra-prima "Cópia Fiel", por apresentar uma história na qual caímos de paraquedas, nos inserimos no universo conturbado dos personagens e tentamos decifrá-los durante toda a projeção. Mas, principalmente, por apresentar um Abbas saído do Irã, como no filme com Binoche. Porém, ao invés de Itália, temos Japão. Um Japão particular que o diretor engradece em beleza e mistério com sua fotografia deslumbrante. 

Para tanto, somos apresentados à história de... nada. E ao mesmo tempo, tudo. Se de início Abbas parece tentar retratar algumas horas na vida de uma prostituta japonesa que se envolve com um de seus clientes (um idoso aparentemente solitário), logo abre mão de uma narrativa mais substancial para dar lugar a uma estética deslumbrante. Os planos-sequência e as longuíssimas cenas muito bem administradas, acabam sendo um dos maiores charmes do filme. E a ideia de narrar a maior parte dos fatos em tempo real só abrilhantou mais ainda a película. E sorte nossa que Kiarostami sabe, como poucos no cenário atual, nos conservar interesse em assistir quase duas horas banais na vida de uma protagonista infeliz. Afinal, uma proposta dessas (por natureza, muito difícil) já nasce com um pé na cova. 

E talvez o truque para tudo funcionar tenha sido a beleza de sua fotografia. Milimetricamente calculada, faz cada contraste de luz e sombra parecer algo único. Outro destaque também está na montagem, fabulosa, que torna seu esquecimento no Oscar algo imperdoável. A melhor do ano, sem a necessidade de se pensar duas vezes. Ao passo que nos instiga a saber mais, a entrar mais no universo dos personagens, amarra cada corte de cena de forma fabulosa. Além de criar transições de cenas perfeitamente delicadas e homogêneas, para que o clima de contemplação não seja desfeito em momento algum.

Mais um recurso muito utilizado pelo cineasta (e nisto se assemelha a "Gosto de Cereja"), é que os personagens não são levados à fundo, não são aprofundados. Propositalmente. Em nada interessa seus passados, suas vidas, o que importa é apenas o agora. Dessa forma, Abbas na maior parte das falas, se utiliza daquelas que em muito pouco correspondem à história do filme, que em nada são relevantes ou importantes (como o diálogo sobre sopa de camarões ou mesmo sobre o quadro na parede da sala). Apenas assuntos banais, em um momento comum, de pessoas como nós. 

Todavia, não pensem que apenas de estética sobrevive "Like Someone in Love". Nele, há espaço também para sentimentos e divagações (vide a cena da avó da protagonista esperando na praça). O longa nos faz refletir muito sobre nossa própria natureza. Aquela de, em um ato desesperado de solidão, nos apegarmos as outras pessoas e clamarmos por companhia. Ou também que em muito revogamos pessoas queridas e nos apegamos a outras que de certa forma não merecem. Este é o nosso senso de proteção. O personagem do idoso, por exemplo, nos representa. Quando tentamos nos relacionar com alguém e entramos em sua vida numa tentativa de ajudar o próximo e nos ajudar, automaticamente. E é este o ponto chave, acima de tudo. Não acho que haja alguém apaixonado, como o título sugere, mas sim uma relação de cooperação entre duas pessoas. Ambas desoladas, ambas ansiando por outro alguém. Mesmo que durante um pequeno período de tempo ou mesmo que esteja fadado ao final triste. Mas, será que algo assim possui realmente um final?

Gênero: Drama
Duração: 105 min.
Ano: 2012