332. Meia-Noite em Paris

quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Postado por Selton Dutra Zen


(Excelente)

Woody Allen ama Nova York. E seus filmes se encarregam de provar isto, basta assistir a "Manhattan" ou a maioria restante de suas obras. Por este motivo, estranhei vê-lo homenageando uma cidade extra-Nova York, com "Meia-Noite em Paris". Porém, esse estranhamento rapidamente deu lugar a sensação de conforto e prazer que tanto esta produção exala. 

Owen Wilson interpreta um escritor frustrado e infeliz que, após se perder numa noite, tentando voltar para casa, escuta um relógio badalar avisando a chegada da meia-noite, e um carro o leva para a década de 20,  à lugares estranhos, nos quais o escritor se encontra com personalidades (cineastas, escritores, pintores, etc..) mortas há muito tempo. 

E este foi meu outro estranhamento (positivo) quanto ao filme, pois ele acaba, por ventura, flertando muito com a ficção científica, porém de um jeito completamente inovador. Allen se utiliza da viagem no tempo para nos fazer refletir sobre o modo como nós, seres humanos, estamos sempre descontentes com o que temos. E o portal para outra era surge como uma metáfora à vontade que todos temos de mudar drasticamente de vida, porém não possuímos coragem suficiente para isso.  

A transição da idade contemporânea para a década de 20 é soberba e sutil! Só percebi esta mudança de mais ou menos 90 anos, na metade da projeção. Além disso, a direção de arte é sublime, ao retratar de forma magistral os ambientes da época sem se configurar exagerada ou artificial. E, contribuindo mais ainda para a representação citada, a fotografia, excelente, acrescenta um tom acolhedor e aconchegante aos anos 20 e um tom mais frio, seco na década atual, representando a agradabilidade e o desconforto, respectivamente.

E isto é ressaltado por Owen Wilson, em uma interpretação surpreendente, que se encarrega de enfatizar mais ainda o descontentamento de seu personagem com a vida que leva, além de dominar e transparecer de forma excelente os trejeitos do próprio Woody Allen que, como de praxe em suas obras, quando não atua, personifica suas manias em algum personagem da trama. Surgindo como uma "vilã" (entre aspas por ser a pessoa que, mesmo involuntariamente, torna a vida do pobre escritor infeliz), Rachel McAdams desempenha de forma competente e convincente o papel da noiva desse mesmo escritor. Não obstante, ainda vemos alguma pontas de Kathy Bates, uma veterana, sempre ótima. Mas o outro grande destaque no elenco (depois de Owen) vai para Marion Cotillard, a eterna Piaf, que se revela uma atriz completamente adaptável aos papéis que aceita protagonizar, sem deixar o nível de qualidade decair.

O roteiro e a direção do gênio Woody Allen são fantásticos. O primeiro, além de proporcionar os questionamentos intimistas para o espectador, ainda nos reserva várias situações muito divertidas, envolvendo personalidades da época retratada, como quando o protagonista sugere a ideia do filme "O Anjo Exterminador" para Luis Buñuel: -"Senhor Buñuel, tenho uma boa ideia para um filme. Algumas pessoas estão num jantar chique, e no fim deste jantar tentam sair da sala mas não podem." -"Por que não?" [...] -"Não sei, pense nisso. Talvez um dia ao se barbear ache a resposta." E esta é apenas uma das inúmeras sequência inusitadas inseridas no filme.

Assim, "Meia-Noite em Paris" acaba se tornando um dos melhores filmes da segunda parte da carreira de Allen (dos anos 90 até hoje), e um dos melhores lançamentos do ano!


Gênero: Comédia
Duração: 93 min.
Ano: 2011

3 comentários:

David C. disse...

Excelente.

KingNurk disse...

Bacana, anotarei aqui para assistir, parece muito interessante mesmo, e o fato de vc estar elogiando a atuação do OWEN WILSON me deixa ainda mais curioso, pois o considero um ator péssimo, canastrão ao extremo, que só se salva na série "Bater Ou Correr" até pq se dar bem quando tem Jackie Chan ao lado é fácil, então nunca pensei que ele poderia render algo mais além daquilo! Irei conferir!

Selton Dutra Zen disse...

Eu não esperava nada da atuação do Owen, mas ele me surpreendeu muito. Vale dar uma conferida sim! ;)