Cinefilia 12: Clássicos: Dogville

domingo, 13 de março de 2011
Postado por Selton Dutra Zen

Obs: Este post contém spoilers!


"Dogville" é um filme essencial para estudantes de psicologia ou sociologia, porque além de promover uma análise acerca das atitudes sociais humanas, Lars Von Trier ainda testa os nossos próprios sentimentos em uma conclusão absurdamente chocante.

Grace (Nicole Kidman) é uma mulher que acaba parando em uma cidadezinha, com pouco mais de cinco estabelecimentos, chamada Dogville, enquanto fugia de gângsters. Os moradores de Dogville a recebem calorosamente e a deixam ficar o tempo que precisar, mas em troca Grace precisa trabalhar para eles. De início, sua carga horária é tranquila, e ela recebe um salário razoável, mas com o passar do tempo, os moradores da cidadezinha vão mostrando suas garras e transformam Grace em uma escrava.

O que se segue é uma cena mais angustiante que a outra. Vemos a personagem principal ser maltratada, estuprada, xingada e trapaceada. Notem que, nas primeiras vezes em que Grace é estuprada por um dos moradores de Dogville, ela se desespera e se debate, mas nas outras muitas vezes que se seguem (um estupro ocorria quase que diariamente) ela está conformada e mesmo enojada de ver um homem sujo e vil se apossando de seu corpo, não se debate mais, fica parada, conformada, porque ela sabe que se protestar ou se rebelar a corda arrebentará no lado mais fraco, que no caso é o dela.

Uma das vezes em que ela é estuprada, a esposa do homem que a estuprou (junto de algumas outras mulheres da vila) vão ao lugar onde Grace dorme e a torturam psicologicamente, como se quem tivesse se oferecido para ter relações sexuais com o marido dela fosse Grace. E ao final desta cena, a mulher ainda continua torturando-a, mas desta vez tendo como objeto de tortura bonecas que Grace, com tanto esforço conseguiu comprar na loja da região.

E no terceiro ato do filme, os personagens chegam ao ponto de amarrar uma coleira de metal presa a uma roda de carroça, também de metal, com um sino, em seu pescoço para ela não fugir e continuar servindo de escrava doméstica e sexual da vila. Como um animal. Aliás, um animal seria melhor tratado em Dogville do que Grace.

Quando "Dogville" chega em seus 15 minutos finais, já estamos completamente indignados com a situação pela qual a pobre personagem central está sendo submetida, temos vontade de entrar na tela e providenciar um bom castigo a todos os moradores. Somos surpreendidos então, com a notícia de que os gângsters dos quais Grace estava fugindo são liderados por seu pai, que estava apenas tentando traze-la de volta para casa. Grace não suportava sua casa, mas com certeza seria melhor do que aquele local. Na verdade poucas coisas podiam ser piores do que a sua situação atual. E com determinação impõe uma condição para que volte para casa: que os membros da máfia de seu pai matassem todos que residiam em Dogville. Assim sendo, Von Trier encerra o filme com a imagem de uma chacina contra todos os moradores da vila. Nesta sequência final, presenciamos homens matando todos, até um bebê, quase um recém nascido, no colo de sua mãe.

Neste momento Lars Von Trier, após promover uma discussão sobre as capacidades sociais do ser humano, nos faz julgar nossos próprios sentimentos. Confesso que fiquei realizado em ver todas aquelas pessoas sendo castigadas por tudo o que fizeram com Grace, mesmo que este castigo tenha sido a morte. Mas depois que a cena acaba, quando os créditos sobem, esta realização da lugar a um sentimento de culpa. Culpa por gostar de ter visto pessoas morrendo, tudo bem que aquelas pessoas mereciam, mas será que o bebê no colo de uma mulher má merecia morrer de forma tão brutal? Não, não merecia. "Dogville" nos força a fazer uma auto-reflexão. É natural do ser humano gostar de ver catástrofes, embora apenas com pessoas que mereçam, não com inocentes. Mas será que estas pessoas mereciam a morte?


Este filme merece ser assistido não somente por seu roteiro genial, mas também por uma parte técnica inovadora e ao mesmo tempo muito ousada. Lars Von Trier ousa criar um filme de quase 3 horas que se passa completamente em uma pequena cidadezinha, onde as construções não possuem parede, nem portas, apenas divisões marcadas por linhas brancas no chão. Quando um personagem entra em um estabelecimento, ele abre uma porta imaginária e podemos ouvir o som da porta abrindo e fechando. Para alguns esta técnica pode soar enjoativa, mas para mim, soou ao contrário, genial! Magistral! Estas quase 3 horas passaram como se fossem 90 minutos!

Os méritos não param por ai! Von Trier consegue extrair de Nicole Kidman uma interpretação visceral, digna de Oscar, onde ela conegue representar brilhantemente bem a transição de sentimentos e expressões pelas quais sua personagem passa.

Sendo assim, "Dogville" é um filme essencial para sociólogos e psicólogos, mas principalmente, é um filme essencial para qualquer cinéfilo. "Dogville" é um dos melhores e mais originais filmes da história do cinema!

2 comentários:

Kahlil Affonso disse...

tenho o dvd desse filme e nunca o vi, mas não é por falta de curiosidade/vontade

http://filme-do-dia.blogspot.com/

Hilton Neves disse...

Da 1ª vez que assisti a Dogville reagi por tecer críticas extensas ao fato do Lars ter colocado a estória nos EUA, vivida por atores europeus em boa parte do elenco.
Iniciei até com um jogo de palavras clichê que uso: "esse Lars gosta de falar groselha", ao aproveitar o arbusto de groselha da Ma Ginger, recorrente nas cenas do armazém.

Os EUA, porém, não são o foco de Dogville, e sim o que foi analisado neste artigo.
E de fato o Lars nos espeta com todas essas questões que levanta. Nas últimas cenas pensei: - É um instinto ou impulso, não sei a palavra certa, que existe em nós humanos, e é perigoso.

Vale a pena também, conforme descrito no texto, observar a evolução dos habitantes nos capítulos. De acolhedores no 2 ou 3; no capítulo 6 o povoado já está insano, na maior parte.

A estética, como vista nas fotos do artigo, também é fora-de-série! Criativo à beça fazer o pessoal abrir portas daquela forma, as marcas pintadas no chão, a colheita... e assim por diante: uma ambientação de teatro perfeita.