375. O Segredo das Águas

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários


(Obra-prima)

São muito poucos os cineastas dedicados ao cinema primordialmente sensorial na atualidade e destes, menor ainda é o número dos que realmente obtêm êxito. Naomi Kawase se conserva como um dos raros nomes de respeito neste contexto não apenas por realizar trabalhos de extrema delicadeza e sensibilidade, mas também por toda a homenagem que presta ao próprio país. Toda sua carreira foi dedicada a engrandecer a cultura japonesa, e não necessariamente torná-la palatável (fornecer explicações), mas elevar à máxima potência o conceito de união do arcaico (todas as lendas e os hábitos antigos) com o moderno (as relações humanas, o sexo e a selva de pedra). Surge dai sua marca registrada que, pessoalmente, tanto me agrada: a interação entre o ser humano e a natureza. E em "O Segredo das Águas" (2014), seu mais novo filme, isto se faz mais claro que nunca.

A lógica é a mesma de seus filmes anteriores. Um fiapo de trama surge como vetor para uma análise de como nós, seres viventes, nos conectamos com a dinâmica da natureza. Embora aqui haja uma linha narrativa mais concreta. Aqueles que nunca tiveram contato com o cinema de Kawase podem encontrar neste o longa ideal para ingressar no universo da cineasta. O drama começa com a aparição de um cadáver nas águas do mar de uma praia em uma ilha japonesa, cuja minúscula população subsiste em grande parte das riquezas proporcionadas pelo mar e pelas belezas naturais do local. E de alguma forma este incidente altera a rotina de um jovem adolescente que vive a maior parte de seu dia sozinho - sua mão se apresenta como uma figura ausente. Sua realidade individualista é mudada pela presença de uma garota apaixonada por ele que, aparentemente, não é correspondida. O longa se dedica, então, a seguir o dia a dia dos dois jovens enquanto estes aprendem a amadurecer sob a luz de diversas mudanças em suas vidas e na forma de enxergarem o mundo. 

Ela possui um contato total com a natureza. O mar é como sua segunda casa, um lugar de libertação, ela se sente livre e dona de seu próprio mundo. Filha de uma xamã, aprendeu com a mãe o poder da natureza e o quanto esta pode se relacionar com o comportamento humano. O garoto, por sua vez, teme o mar e o encara como uma criatura viva, prestes a engolir tudo que se oponha a seus limites. E de certa forma as duas visões se completam, já que a obra pretende justamente abordar o mar como uma entidade viva, capaz de dar e coletar tudo outra vez, capaz de conceder vida e de tirá-la. E por mais que outros elementos naturais se fundam à ideia, o foco se concentra sempre no mar. É como se "O Segredo das Águas" complementasse uma ideia construída por Kawase em suas obras-primas anteriores, "A Floresta dos Lamentos" (2007) e "Hanezu" (2011). No filme de 2007, o foco parece ser o ar, o modo como os dois personagens, perdidos na floresta, são manipulados e surgem tão desprotegidos sob a presença do vento e a forma sutil com que suas vidas vão seguindo como que em lufadas do destino parece ressaltar a ideia. Quatro anos depois, no longa de 2011, Kawase discorre sobre a importância da terra na vida humana e a própria trama se revela muito mais árida e crua, que deixa um gosto estranho com seu encerramento pessimista. "O Segredo das Águas" se conserva na mesma linha. E nunca antes a ideia da natureza influenciando o estado emocional dos personagens (e vice-versa) se fez tão óbvia em sua filmografia. Basta notar que, conforme a vida dos protagonistas vai se conturbando, mais e mais o mar vai se tornando revolto, assim como o vento soprando mais forte, até culminar na tempestade do terceiro ato.

Mas a agressividade natural se contrapõe à sutileza da construção psicológica dos protagonistas - algo que a diretora se especializou ao longo dos anos. Tudo é dito nas entrelinhas. O espectador de fato não consegue identificar os sentimentos do garoto para com sua companheira e passa a analisar cada uma de suas atitudes como se tentando entender a confusão de seu caráter. Em raros momentos podemos vê-lo rindo ou mesmo externalizando algum tipo de emoção mais concreta que não seja o tom indiferente de seu olhar. E nem precisa de fato demonstrar o que sente... a expressão da natureza já traduz tudo que se possa precisar compreender.

E assim como a evolução das personas, também é a técnica: de um extremo bom gosto, os elementos parecem se fundir de forma homogênea e inseparável. Tudo acompanha um mesmo patamar de qualidade em sintonia. A começar pela fotografia que opta mais pela vitalização e embelezamento das cenas filmadas que pela apelação de um clima específico. Assim, as tomadas abertas reservam panoramas belíssimos que engrandecem ainda mais a grandiosidade e o poder do mar e dos elementos sobre a ilha e entrega cenas de extrema inteligência, como toda a sequência em que a mãe da protagonista retorna o hospital e sua cama é instalada em um ambiente onde esta possa observar a figueira deitada em seu leito. A reação da mulher diante do esplendor natural que enxerga é um exemplo onde a imagem adquire um coração à parte, como se fosse viva. Notem como, nesta sequência, a câmera adota angulações geralmente baixas (pequenez) ou planos americanos (igualando a árvore à mulher), de forma que uma criatura se funde como a outra através da mão estendida da mulher.

E obedecendo à mesma funcionalidade da fotografia, a mixagem de som cuida de transformar sons naturais em quase personagens, enquanto a montagem crua e precisa economiza em rodeios e aplica cortes precisos em momentos exatos, de onde vem a força crua da narrativa. 

No fundo, "O Segredo das Águas" não passa de um roteiro sobre a descoberta adolescente, Um romance entre duas criaturas afetadas pela fase conturbada da vida. Se descobrindo como seres humanos e nem sempre gostando do que descobrem ser. O que por si só é promissor de nascença. Mas a grandiosidade e o tempero extra são créditos de Naomi Kawase, que neste seu mais novo projeto se mantém fiel à sua estética e entrega uma obra de beleza considerável, humana e cultural, como sempre fez e parece que sempre assim fará. Apresentou um dos trabalhos mais lindos do ano, assim como um dos melhores longas de 2014. É uma pena que muitos cinéfilos ainda se fechem ao trabalho autoral da diretora japonesa e não deem o crédito necessário à mulher: uma das melhores realizadoras (es) da contemporaneidade. 

374. Interestelar

quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Postado por Selton Dutra Zen 0 comentários



(Obra-prima)

Escrever é uma arte e, como tal, exige demais do campo dos sentimentos. Claro, é através da escrita, do som ou da imagem que nos desconstruímos e expressamos tudo o que há de melhor ou pior dentro de nós mesmos – não é à toa que a melancolia sempre foi ótima fonte de inspiração. E justamente por esse contato íntimo que conservo com a escrita que me senti, confesso, acuado em escrever sobre “Interestelar” (2014). Conferi o longa em seu fim de semana de estreia mas demorei para comentá-lo em texto devido uma alienação gigante que senti ao seu encerramento principalmente por não saber como transpor o que sentia em palavras. O novo longa do inglês Christopher Nolan é muito mais letárgico e sentimental do que eu realmente estava preparado para encarar – e me senti distante, transitando por dimensões ainda não concebidas, com dificuldade de voltar: “Interestelar” me conduziu a uma viagem tão espiritualmente devastadora e construtiva como há muito não via em um filme de ficção.

Conduzindo a épica jornada está Cooper, engenheiro frustrado e ex-piloto espacial que é chamado a liderar uma expedição com intuito de estudar outros planetas possíveis portadores de vida, já que a Terra e toda sua população está à beira do colapso e extinção. Para tanto, devem penetrar o âmbito desconhecido de um buraco negro, suposto portal para outra galáxia. O drama é que Cooper pode nunca mais voltar a ver seus filhos, devido a relatividade de tempo e espaço existente em domínios extra-humanos. Com isso, o acerto de Nolan começa logo no casting, ao confiar o protagonismo a Matthew McConaughey, que vem se provando cada vez mais habilitado e maduro para tomar as rédeas de personagens muito mais complexos, desde 2011, tendo como exemplo longas como “Killer Joe”. Surgido e estabelecido no mundo das comédias românticas, sempre como o personagem encarregado de arrancar suspiros da plateia feminina, Matthew, aqui, encabeça um homem fragilizado pela perda dolorida de sua mulher, pela frustração de viver deslocado em uma época e ambiente que não contemplam a criatividade intelectual de sua formação, além de lutar diariamente para o sustento de seus dois filhos ainda menores. O que mais impressiona na concepção do personagem é seu metamorfismo durante a projeção. Não era para menos, após presenciar situações inomináveis, o mínimo a se esperar de seu comportamento é um amadurecimento gritante – justamente o que acontece. Afinal, há uma jornada muito mais espiritual que técnica acontecendo. 

Fazem parte do elenco, também em performances notáveis, as queridas da américa Jessica Chastain e Anne Hathaway, pauteadas por um Michael Caine já em idade avançada. Todos em um entrosamento capaz de levar diversas cenas nas costas sem grandes dificuldades.

Mas, dentre tudo, é necessário deixar a racionalidade um pouco de lado (embora esta se faça fortemente presente ao longo de toda a trama) e contemplar a conquista do próprio Nolan em um âmbito inédito ao cineasta. Ao tratar de questões não mais puramente frias e teóricas, o diretor abre espaço para mostrar seu lado que até então tinha permanecido escondido: a expressão dos sentimentos. Pela primeira vez, Christopher prova ser um realizador extremamente hábil no domínio dos sentimentos e fazer com que estes alimentem a narrativa de forma tão significativa que se torna impossível o não envolvimento do espectador na jornada interestelar. Seus outros longas, embora sejam trabalhos notáveis, ainda são frios e carecem de um maior engajamento humano. “Interestelar” surge justamente para mostrar o contrário e de forma não tão fácil: extrair sentimentos de uma plot por natureza extremamente técnica e racional. Não que a racionalidade tenha sido abandonada. Pelo contrário, ela se faz notar deveras. A diferença é que há espaço narrativo para que a frieza da racionalidade ande de mãos dadas com o aconchego dos valores humanos. E ainda se faz mais: Nolan cria a sensação de que sem um, o outro não existiria.

Como se não bastasse reunir duas qualidades escassas no cinema contemporâneo, fazer pensar e fazer sentir, o diretor ainda reserva um truque na manga: se apoiar em um dos maiores clássicos da história do cinema, “2001 – Uma Odisseia no Espaço” (1968), de forma a tentar homenagear a figura de Kubrick e seu legado inestimável. E o que conta como fortaleza é a atitude de se basear em “2001...” não como fonte de consulta, mas como fonte de inspiração. Dessa forma, o processo se torna muito mais de homenagear que de aplicar a formula de grande sucesso do filme de 68. E quem me conhece, sabe de minha devoção ao filme de Kubrick – de longe, meu filme favorito e, para mim, o longa mais próximo a perfeição já concebido e executado no cinema. Desta forma, surge como uma honra imensa de minha parte presenciar uma obra tão importante tratada com tanto zelo e igual admiração. O cuidado de Nolan ao reprisar algumas trucagens empregadas por Kubrick na produção original são destacáveis. Notem o formato do robô que auxilia os astronautas na jornada interestelar, muito semelhante ao de um monolito, ou mesmo a forma de tratar o espaço como um vácuo, desprovido de som. E nisso a mixagem sonora acerta justamente por descobrir e desconstruir os acertos de Kubrick e aplica-los, quase como um estudo, de forma discreta, porém sempre eficiente. O uso da trilha sonora, em “Interestelar”, remete muito ao clássico, com direito a composições mais graves e até trechos eletrônicos simulando orquestras ou composições eruditas. Há uma tentativa de modernizar – que obtem muito êxito.

Ainda nesta linha de pensamento, notem como os trajes espaciais diferem bastante das genéricas vestimentas dos astronautas dos filmes de ficção atuais, os planos com enquadramento baixo (com a câmera colada às latarias) adotados pela fotografia e mesmo o design das naves (em especial, a estação que permanece orbitando e transportando a nave dos protagonistas) se aproximam consideravelmente da criação kubrickiana, ainda que sempre com a marca do realizador. Prova disso é a montagem impecável, marca registrada de Nolan, que engrandece a inteligência da narrativa sem se mostrar carregada ou exagerada. É interessante como Nolan usa o contexto de relatividade temporal como base de sua própria lógica de edição: se apossando de uma trama complexa e extensa, o espectador pode notar o esmero dos envolvidos em retratar a trajetória completa em pouco menos de 3 horas (que, acreditem, passam voando). O truque para isso é justamente coordenar as duas realidades (terrestre e espacial) de forma a transmitir espaços de tempo variados, distorcendo literalmente a noção de tempo e espaço que o espectador possa vir a conservar durante determinadas sequências – algo que se revela um acerto extra no encerramento do filme. Assim, Nolan tem em mãos o controle total do tempo que precisa gastar para evoluir a narrativa da forma que bem entender. Prova disso é a brilhante sequência do pouso no primeiro planeta estudado, onde 1 hora equivale a 7 anos terrestres, na qual acompanhamos uma espécie de resumo das atividades ocorridas neste intervalo de tempo.

“Interestelar” divaga muito sobre isso, aliás. A noção do tempo e como este, por ser efêmero, pode destruir vidas como se fossem insetos. Nós vivemos uma pequena parcela da idade da Terra e nos enganamos imaginando que somos o centro do universo. A mensagem é maior do que se pensa e maximiza ainda mais a jornada dos heróis porque vemos um objetivo transcendental sob a roupagem de estória apocalíptica. Vemos o amor tratado a níveis intergalácticos, o auto sacrifício em função de um bem maior e comunitário.

Enfim, foi “Interestelar” que me tirou do ostracismo, me impulsionando a eternizar o efeito desta jornada em palavras. Poderia ter comentado ainda da qualidade dos ambientes criados pela direção de arte (destaque, por exemplo, ao primeiro planeta explorado, totalmente composto de água, que exprime uma sensação de solidão existencial gigante, além de confusão psicológica igualmente contundente). Poderia ter abordado toda a sequência da sucção pelo buraco negro e o brilhante design de produção do ato final, a forma de transparecer algo inconcebível a nós, seres limitados, através de imagens. Mas escolhi me ater ao que muitos provavelmente vão esquecer em suas análises: a temática sentimental. E me foco nisso por dois motivos: o primeiro seria a demonstração de que seu famigerado diretor consegue, sim, dar o recado completo em uma trama essencialmente sentimental. E, principalmente, porque “Interestelar” nos reserva um gosto nostálgico do que um dia foi o universo da ficção científica: uma oportunidade de imaginar uma hipótese (nem tanto) irreal e utiliza-la como análise social contemporânea. Estou certo de que esta não apenas é uma das maiores obras-primas do ano (se não a maior), mas também um dos mais memoráveis filmes de ficção científica pós anos 2000.

Gênero: Ficção Científica
Duração: 170 min.
Ano: 2014

Cinefilia 27: Mártires

segunda-feira, 23 de junho de 2014
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários



P.S: Este post contém spoilers!

Existe o terror e o susto. Um não é intrínseco ao outro, embora se completem e coexistam em harmonia. Na realidade, o susto - que deveria ser um impulso para o sentimento de terror - acabou se tornando uma ferramenta preguiçosa e prática para a substituição deste último. Não há mais necessidade de se criar uma atmosfera angustiante, nem de conservar uma tensão gradativa, que deveria se tornar insuportável com o passar dos minutos. A insistente aposta dos cineastas (principalmente contemporâneos) em abrir mão de  uma direção inteligente ou mesmo um thriller funcional pelo caminho fácil do susto vem espantando cada vez mais atualmente - e se o sistema havia funcionado com os slasher movies nos 70's e 80's, ultimamente já perdeu a graça. Para esclarecer e sintetizar: "O Iluminado" (1980), "A Bruxa de Blair" (1999) e "Nosferatu" (1922) são filmes de terror. Toda a série "Sexta-Feira 13" (para não monopolizar títulos contemporâneos) e boa parte dos lançamentos atuais são apenas comércio de susto, sob roupagem de terror. 

E este foi justamente um dos motivos pelo qual resolvi dedicar um espaço por aqui para tratar de um filme que se conserva injustamente esquecido para a maioria do público geral. Trata-se de um daqueles longas para se assistir e jamais esquecer, ou mesmo ser otimista por um tempo depois da sessão. Um tour de force sangrento e vital para os amantes do terror legítimo e para aqueles que desacreditam no alcance criativo do cinema atual. Como já devem ter percebido, é sobre "Mártires" (2008) que irei tratar. E, com isso, os entendidos já sabem o que encontrarão nos próximos parágrafos. 

"Mártir, do grego Marturos: testemunha"

 muito o que se debater sobre a classificação de um mártir. De fato o cerne da definição se encontra no letreiro que encerra o filme e está transcrito acima, mas há também o mártir clássico, aquele que sofre pelo bem comum e morre por uma causa mútua. Seja como for e como preferirem, ambas as versões se enquadram na perspectiva do filme, que se configura sempre muito ampla e margeia diversas análises que se possam inferir sobre o ser humano e suas atitudes mais irracionais que as de um animal selvagem. Antes de dissecar a técnica e a qualidade fílmica, acho válido entrarmos no mérito das análises propostas por este filme. Constantemente, me remeti deveras a "Saló, os 120 Dias de Sodoma" (1975), polêmico filme de Pasolini, justamente pela reflexão que tenta delinear sobre as condições de superioridade de classe e o egocentrismo de um ser humano que se entende melhor que outro apenas por se encontrar desocupado por sua condição social favorável. Basta compararmos os fascistas sádicos do filme de 75 com a organização igualmente sádica comandada pela magnata idosa e veremos que as semelhanças não se restringem apenas a questão de como um grupo de pessoas escraviza outro por bel-prazer, apenas para buscar algo que não conseguem explicar ou saciar: o sexo, no filme de Pasolini e o pós vida, neste aqui. A própria plot possui uma crítica implícita que demonstra ainda mais as semelhanças nos dois longas.

Lucie, uma garota francesa de 10 anos, foge do cativeiro no qual era mantida trancafiada e torturada. Ela se lembra de muito pouco, mas, 15 anos depois, quando vê a fotografia de seus sequestradores no jornal, decide se vingar e por um fim em seu passado obscuro. Naturalmente, Lucie mata aqueles que lhe fizeram mal, mas ainda continua atormentada por alucinações e o peso na consciência - o que acaba assumindo proporções estratosféricas para ela e sua irmã de adoção, Anna, quando as coisas saem do controle. Inicia-se, então, um estudo sobre os limites humanos. Quando submetido às mais horrendas humilhações e processos de tortura constantes, o ser humano passa a se portar como um animal. Até aí, nada de novo no fronte. Diversos filmes já haviam abordado o tema, muitas vezes de forma tão acertada quanto aqui, mas o que destaca "Mártires" da multidão é o caminho que este escolhe para tecer sua crítica social: poucos filmes da atualidade conseguiram atingir um padrão de choque tão grande e supremo quanto este aqui. Contudo, notem que em momento algum a violência extrema surge como apelação, mas sempre como forma de alerta, de cativar a atenção para um objetivo maior - tudo isso, claro, sem cair no clichê da lição de moral. 

E por falar em clichês, grande parte do que conhecemos hoje por terror é fundamentado numa cultura de clichês recorrentes, nascidos ainda nos primórdios de hollywood e no próprio cinema mudo. De certa forma, "Mártires" estabelece uma brincadeira com todos os pontos comuns do gênero e se utiliza disso para criar uma atmosfera única, original e que, principalmente, faça o espectador de refém do início ao fim da projeção. Durante quase 100 minutos, somos nocauteados por uma trama que passeia por diversas classificações, desde o terror de raiz, o suspense macabro e estacionando no gore - muito sangue e sujeira são guiados pela direção firme e incisiva.


A condução do filme é inteligentíssima não apenas por se apossar de forma exemplar da estética do refém, mas também pela capacidade de renovar a própria história, a transformando de tempos em tempos, o que torna toda a experiência mais angustiante e urgente ainda: por isso, quando estamos nos acostumando a um personagem e este morre abruptamente, a cena que se segue cuida de continuar arrastando o público através da projeção - o que resulta em sequências ainda mais desesperadas e uma carga dramática muito elevada.

Mas a inteligência não para por ai: poucas vezes nos últimos tempos me lembro de ter visto uma produção onde a técnica fosse utilizada de forma tão significativa em prol do terror quanto neste filme. Digo que "Mártires" retorna à raiz do gênero justamente pela forma como manipula todos os elementos de cena para não apenas criar um suspense barato ou sustos recorrentes, mas para construir gradativamente um contexto de tensão e depravação absoluta, onde não há escapatória nem paz, até que o suspense atinja níveis doentios. E o terror aqui é muito mais psicológico que imagético, o que conduz o espectador literalmente em uma catarse de choque. Neste ponto, podem notar que a fotografia não adota caminhos óbvios: ao invés  de expor as alucinações de Lucie logo nos primeiros minutos, o filme adota trucagens e enquadramentos de forma que passem a revelar a natureza da criatura apenas quando a curiosidade já está matando quem o assiste. Além do mais, a diferenciação da iluminação entre a casa e seu subsolo é gritante e modelada brilhantemente com o intuito de perpassar a sensação não apenas de sujeira e pecado, mas principalmente solidão. Nisso também contribui a direção de arte, que aposta em extremos para gerar desconforto: se na infância da garota o cativeiro era um local precário que se assemelhava deveras a uma masmorra, já em sua vida adulta, este mesmo local se configura quase que etéreo e rico de uma atmosfera hospitalar - de um manicômio.

A concepção da criatura que amedronta Lucie na primeira metade da projeção também merece destaque particular pela sua eficácia narrativa, uma vez que incorpora algo raríssimo de se presenciar no cinema atual - uma figura tão repugnante e horrenda que apenas a menção de sua presença no ambiente causa desconforto. É um ser abominável, detestável e diabólico do qual jamais queremos ter contato na película. É tudo o que "Mamá" (2013) quis ser e não conseguiu. A mixagem de seus grunhidos, que arrepia qualquer um e é empregada nos momentos certeiros para a construção do terror, só é superada pela inteligente maquiagem que acrescenta, em meio a fantasia da alucinação, um tom de realidade. Toda a aparência deformada que se exprime no corpo e rosto da entidade (sejam as juntas deslocadas, a boca costurada ou a cegueira de um olho) é fruto de uma violência que lhe foi inferida anteriormente. Algo que poderia ter acontecido à própria protagonista, se não tivesse fugido de seu cativeiro a tempo: se transformaria num monstro equivalente, criado por um ser humano.

E cada uma dessas tiradas inteligentes proporcionadas pela integração excepcional de todos os elementos fílmicos só contribui para que o terceiro ato surja como um dos momentos mais apavorantes dos últimos anos. O que assusta é a maldade humana e o circo de horrores que se forma ao redor da sanidade de Anna. Após sua irmã ser assassinada pela organização, Anna é presa em um dos cativeiros e sente na pele o terror que contaminou tantas outras crianças, homens e mulheres até então: o que vemos a partir dai é um desfile de agressão física e verbal que não soa como uma sequência gratuita de gore e depravação, mas, em decorrência da evolução clínica e precisa concedida pela direção à trama e seus personagens, tudo soa como algo apavorante, iminente e desesperador. E o encerramento genial surge como fim inevitável (ainda que original e inesperado).

Em suma, "Mártires" é uma obra-prima do gênero. Não me entendam por exagerado e admito que nem eu mesmo imaginaria gostar tanto deste longa francês. Mas sua inteligência é admirável - e o faz funcionar como poucos atualmente. Sua depravação crítica traz a tona um problema que poucos são sensíveis a entender e sentir de uma forma convencional. E aí está um grande motivo pelo qual este filme merece ser mais difundido (não bastasse toda a qualidade cinematográfica que tem). Sua ideologia gruda e faz pensar. Assisti este filme durante a madrugada e fui me deitar após a sessão. Não consegui dormir, estava sentindo dor - e não sabia discernir se era física ou emocional.


373. Os Suspeitos

domingo, 23 de março de 2014
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários


(Obra-prima)

É comum que os cinéfilos, de um modo geral, mantenham os dois pés atrás em relação ao parâmetro do cinema norte-americano atual. De certa forma, este preconceito é justificado tendo em vista o declínio da originalidade e relevância dos filmes produzidos nos E.U.A em torno de uma década. Não é novidade que os longas produzidos neste polo deixaram de lado a razão e emoção em detrimento de sucessos plastificados, frios e homogêneos: quanto mais fiel à receita do dinheiro, melhor. Mas quando me deparo com algo do cacife de um suspense policial como este, sinto que ainda há muitas mentes criativas abrilhantando o cinema do norte de nosso continente e trazendo um sopro de esperança em meio aos enlatados habituais. "Os Suspeitos" faz pensar, faz sentir e não apenas é um estudo sensacional da corrupção humana ante a tragédia e o desespero, mas também é o melhor filme lançado no ano de 2013.

Este status pode até soar exagerado e um tanto precipitado - afinal ano passado, embora bem inferior a 2012, rendeu longas de excelente qualidade e forte apelo emocional - mas se considerarmos o histórico de seu realizador, o resultado final se prova algo muito maior que apenas mera cartada de sorte. Denis Villeneuve vem afirmando seu talento e concretizando sua mão firme na direção desde a época de seus primeiros longas, ainda no Canadá. Como pode ser notado no ótimo "Politécnica" (2009) e ainda mais no excelente "Incêndios" (2010), Villeneuve é um daqueles realizadores capazes de chocar sem o apoio imagético. Sua direção é forte e precisa demais, excluindo a necessidade de se apoiar em imagens depravadas para manifestar repulsa ou desconforto no espectador. E por mais estarrecido que eu tenha ficado ao encerramento de seu longa de 2010, é em "Os Suspeitos" que o talento de seu realizador floresce e se expressa de forma mais vívida e incomparável. O que senti (e ainda sinto) ao fim da projeção deste seu mais novo longa é algo que não consigo descrever. Me parece um misto de angustia pela densidade da narrativa ou melancolia pela abordagem da direção. No fundo, o que é não importa, importa mesmo é que "Os Suspeitos" me atingiu de uma forma que há muito tempo não sentia em um lançamento dos últimos anos.

Dentro do campo narrativo, acompanhamos a busca desesperada de duas famílias (e um detetive) para encontrar suas filhas sequestradas. E o que soa como um suspense genérico e é vendido como um thriller policial insosso, na verdade se apresenta como uma divagação sobre um tema que sempre estará em voga: a destruição de um homem pela raiva e obsessão. São duas as premissas abordadas, então: há a investigação que reserva surpresas e revelações perturbadoras e há a transformação de um ser humano digno em um animal. E o mais interessante é a forma como um tema interage com o outro, formando uma rede de personagens e acontecimentos inquebrantável. O roteiro é inteligente e merece elogios principalmente por confiar na capacidade do espectador em se utilizar da lógica para deduzir muitos dos impulsos e nuances da trama. Assim, poupa-nos de sequências explicativas explícitas e reserva mais foco à evolução e aprofundamento da estória. Por isso, cada elemento consta lá por um motivo e nada pode ser dissociado dos 153 minutos de projeção. Ou seja: um daqueles raros casos de filme onde todos os elementos independentes são excelentes e interagem de forma mais magistral ainda - tudo pautado e amarrado pela mão autoral de Villeneuve por trás das câmeras. 

A começar pela fotografia admirável, que logo em seu plano de abertura estabelece sua abordagem fria e melancólica através de tons amenos e realce do branco e preto. É notório que o objetivo primeiro de um fotograma é registrar e endossar a trama que está sendo contada. Cabe ao fotógrafo acrescentar vida às imagens e não apenas retratar, mas contar uma estória. Em segundo lugar, então, se posiciona a estética - na medida do possível, as imagens devem realçar a beleza das localidades ou das imagens capturadas (note que beleza é subjetivo). E a cinematografia de "Os Suspeitos" é simplesmente brilhante justamente por agraciar os dois parâmetros de forma ambígua e muito rica. Através de discretos travellings e closes, as imagens exprimem muito do sufocamento e desesperança nos quais a vida dos protagonistas é imersa, enquanto a paleta de cores desbotadas exprime um gigante tom de melancolia e solidão (o que se contrasta pelos planos abertos da imensa floresta sob a neve) que perdura durante toda a projeção. A beleza criada pelas lentes é, simultaneamente, fabulosa aos olhos, mas triste e doentia. Dessa forma, diversos quadros são inundados por um sofrimento latente, enquanto somos obrigados a contemplar a beleza natural e estética remetidas pelo filme.

E toda essa imersão é engrandecida pela montagem deslumbrante - sem dúvidas, a melhor do ano passado. Dotada de uma fluidez invejável (que faz as mais de duas horas e meia de projeção passarem voando), não apenas é magistral pela linha narrativa que cria, mas principalmente pela inteligência com a qual os planos são costurados entre si. As pistas e revelações são posicionadas nos instantes mais precisos e acertados, de forma a não deixar a peteca cair instante algum. Além do mais, a coesão com a qual as cenas são transpassadas só engrandece a identificação do público no filme. E se levarmos em conta a precisão cirúrgica com a qual a trilha sonora se homogeniza às imagens, o resultado final é delirante e único. 

Já na linha de frente, há um elenco entrosado e repleto de astros se desconstruindo antes as câmeras. Huck Jackman mais uma vez abandona a pose de sex simbol para dar vida a um homem descontrolado (o pai de uma das garotas desaparecidas), porém frágil - e é justamente essa fragilidade que extermina o seu auto-controle. Sua performance se aproxima demais de seu desempenho no maravilhoso "Fonte da Vida" (2006). E o principal mérito seu é a fuga completa da obviedade. Personificando um homem em plena crise, ao invés de optar por recorrentes explosões de raiva, conduz seu desempenho de forma discreta e controlada. Expressa sua dor extrema apenas com o olhar e trejeitos nervosos em suas mãos e expressões faciais - o que já basta para se fazer entender. Qualquer espectador leigo que se deparar com um olhar poderoso como o exprimido por Jackman poderá notar que aquele homem guarda dentro de si uma dor imensa pronta para explodir. E quando a explosão vem (em raros momentos), o estrago é irremediável. Sua crise dilacera o público que já estava fragilizado pela carga emocional da narrativa até então. Por outro lado, seu companheiro de cena e muitas vezes antagonista, Jake Gyllenhaal, sofre do completo oposto. Sua performance como o detetive encarregado do caso é extravagante e exagerada, se utilizando de algo muito perigoso na construção de uma persona: os vícios óbvios que servem como muleta de interpretação e que muitas vezes surgem como um apoio desesperado para a sua falta de entrosamento com o personagem que interpreta. Isso, claro, se dilui na sopa de atores coadjuvantes que, junto dos protagonistas, formam uma escala homogênea de interpretações, todas acima da média, e praticamente no mesmo grau de qualidade. Há um Terrence Howard que convence e uma Viola Davis que emociona por sua quietude, da mesma forma que Maria Bello impressiona pelo estado semi-depressivo em que se encontra e Melissa Leo volta a me conquistar depois de tantos anos, desde o medíocre (porém muito bem interpretado) "Rio Congelado" (2008). 

E ao final, a soma de todas essas variáveis sensacionais - mescladas por uma direção mais que sublime - resulta em um inteligentíssimo thriller, fora do comum. Um dos melhores policiais dos último anos e uma das maiores obras-primas dessa nova década de 20. Seu esquecimento na edição do Oscar deste ano deveria ser tido como crime, uma vez que "Os Suspeitos" é uma conquista imensa, que coloca Denis Villeneuve no seleto rol dos melhores diretores vivos. E ouso dizer que, no parâmetro de suspense, se equipara a colegas de profissão mais experientes, como Eastwood e Demme, quando realizaram os respectivos "Sobre Meninos e Lobos" (2003) e "O Silêncio dos Inocentes" (1991). Pode soar exagerado? Talvez. Contudo, eu aposto minhas fichas na capacidade de Denis em se tornar o maior diretor de thrillers policiais em atividade. Mas isso só o tempo dirá... e que não demore muito para se provar!

Gênero: Drama / Suspense
Duração: 153 min.
Ano: 2013

Cinefilia 26: Apostas ao Oscar 2014

sábado, 1 de março de 2014
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários

Véspera de Oscar, ânimos à flor da pele e cinéfilos se preparando para irem dormir irritados na noite de domingo. Aviso de antemão que, como pode ser notado nas atividades recentes do blog, não estou tão engajado assim na premiação deste ano. 2013 foi um ano repleto de bons lançamentos e pouquíssimas produções realmente ruins, o que, claro, refletiu diretamente na seleção dos indicados às categorias. E  é justamente essa imparcialidade cinematográfica do ano passado (nada tão inesquecível, tampouco detestável) que me afasta e me desentusiasma para amanhã à noite. Prefiro assistir a uma premiação onde os concorrentes se posicionem um degrau acima ou abaixo da linha média do cinema atual, prefiro que os filmes indicados me façam sentir algo além de indiferença: seja choque pela ruindade - e ainda mais por estar concorrendo a prêmio tão importante - ou mesmo pelo brilhantismo de um projeto da mais alta estirpe. Algo que remete muito aos indicados aos Academy Awards do ano passado, onde filmes incríveis ("Amour") disputavam contra produções fraquíssimas e inexplicáveis (como "Indomável Sonhadora" ou "As Aventuras de Pi"). 

Mas ao contrário do que minha falta de entusiasmo pareça demonstrar, assisti a todos os indicados nas principais categorias, mesmo não os tendo comentando em textos no C de Cinema. Este post, portanto, surge como uma espécie de redenção minha em relação a vocês, leitores. Além de arquivar aqui minhas apostas e esperanças para mais uma edição do prêmio da Academia, procurarei tecer breves comentários sobre os longos mais relevantes deste ano. Sem mais delongas, vamos às fichas...

MELHOR FILME:

QUEM GANHA? "12 Anos de Escravidão". O motivo não é novidade para ninguém. O tema agrada aos membros votantes e a narrativa (ao contrário do que muitos pregam) de certa forma agrada aos olhos do júri. É de fato um ótimo filme, que representa um precoce amadurecimento de seu "inexperiente" diretor ao abordar um tema dessa natureza com tanto cuidado e zelo, sem deixar de chocar quando preciso.

QUEM DEVERIA GANHAR? "Gravidade". Meu indicado favorito não apenas pela brilhante direção ou pelas sutis referências estilísticas e narrativas a grandes clássicos da ficção científica, mas principalmente pela ousadia e pelo legado que (espero!) possa deixar aos  seus sucessores. É ousado, tecnicamente exemplar e, mesmo que simplório em pretensão, lida com as emoções do espectador de forma a entrar para a lista dos grandes filmes de 2013.

MELHOR DIRETOR:

QUEM GANHA? Alfonso Cuarón. A Academia não poderia deixar de prestar homenagem a um diretor cujos feitos narrativos são impressionantes. Apenas pelo brilhantismo da direção dos planos-sequência de "Gravidade" acredito que Alfonso deva levar a estatueta. 

QUEM DEVERIA GANHAR? Alfonso Cuarón, sem dúvidas a melhor direção dentre os 5 indicados na categoria. 

MELHOR ATRIZ:

QUEM GANHA? Cate Blanchett. Não apenas por ter ganho diversos dos prêmios aos quais concorreu por sua performance, mas por servir de prêmio de consolação a "Blue Jasmine", que não deve levar nada além desta categoria.

QUEM DEVERIA GANHAR? Cate Blanchett. A atriz está em sua melhor e mais complexa performance. Protagoniza e eterniza algumas das melhores sequências do ano passado no excelente filme de Allen.

MELHOR ATOR:

QUEM GANHA? Matthew McConaughey. Personagens deste tipo costumam agradar e impressionar a Academia, ainda mais pela entrega física de Matthew ao papel. De fato, sua performance é impecável em um filme destacável. Pode ser ameaçado apenas por Leonardo DiCaprio, tantas vezes concorrente.

QUEM DEVERIA GANHAR? Leonardo DiCaprio, que cria uma persona hipnotizante e cativante de um sujeito inescrupuloso, corrupto e detestável.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:

QUEM GANHA? Lupita Nyong'o. A paixão da Academia por "12 Anos de Escravidão" deve interferir na escolha. E também quero acreditar com todas as minhas forças que Jennifer Lawrence não levará o prêmio amanhã à noite. Já basta a brincadeira de mal gosto do ano passado, onde nenhum cinéfilo (muito menos Riva), acredito, deva ter rido.

QUEM DEVERIA GANHAR? Júlia Roberts. (Há uma vaga chance para a atriz também como forma de consolação ao ótimo "Álbum de Família").

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:

QUEM GANHA? "Ela". História incomum, tratada de forma original, com direito a situações emocionantes e ainda uma divagação sobre solidão, malefícios da tecnologia e perversão.

QUEM DEVERIA GANHAR? "Blue Jasmine". Woody Allen afiado, dramático e enfático.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:

QUEM GANHA? "O Lobo de Wall Street". Como pode ser observado, a cerimônia tende a ser de prêmios de consolação. Como Scorsese não tem chance nas duas principais da noite, seu filme deve levar a estatueta como prêmio de participação.

QUEM DEVERIA GANHAR? "O Lobo de Wall Street".

MELHOR FILME ESTRANGEIRO:

QUEM GANHA? "Alabama Monroe". É um retrato tocante, incisivo e dolorido não apenas do câncer, mas da natureza humana ante uma situação desesperadora e de tristeza profunda. É um belo e tocante filme belga que, se ganhar, ficaria muito satisfeito - mesmo não sendo meu favorito na disputa.

QUEM DEVERIA GANHAR? "A Caça". Este sim, uma obra-prima inesquecível que deveria ser muito mais difundida do que de fato é. Sublime ensaio sobre o poder da mentira e poderosíssimo drama sociológico de diversas camadas a se decupar na mente quando a projeção se encerra. É estarrecedor, estonteante, uma sequência macabra de dor e exclusão.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL:

QUEM GANHA? "Lei it Go". "Frozen" está em voga, é da Disney, além de a música agradar a muitos e ser universal. Particularmente, não acho a música grande feito, assim como o filme - a composição não é tão impactante e enfática quanto deveria ser na cena específica.

QUEM DEVERIA GANHAR? "The Moon Song". Esta sim, uma música tocante e significante, sem pretensão de ser edificante, mas bela e eficiente, que serve a um filme igualmente belo e eficaz.

MELHOR ANIMAÇÃO:

QUEM GANHA? "Frozen". Os motivos são óbvios, mas vale citar que, ao contrário da massa, não me senti atraído pelo filme. Quando um coadjuvante fala bem mais alto e cativa mais que os protagonistas, há alguma coisa muito errada acontecendo...

QUEM DEVERIA GANHAR? "Ernest & Celestine". Belíssima ode a amizade sem barreiras ou fronteiras, sob um design nostálgico, visualmente lindo e singelo.

MELHOR DOCUMENTÁRIO:

QUEM GANHA? "The Square". Esta categoria talvez seja uma das mais difíceis da noite. Dois são os títulos mais cogitados ao prêmio: o que acredito que leve e "The Act of Killing". Dou meu voto ao primeiro porque, mesmo sabendo do caráter mais liberal e ousado dos jurados desta categoria, não acredito que uma obra tão única e experimental quanto "The Act of Killing" leve o prêmio. Pode haver surpresas, porém...

QUEM DEVERIA GANHAR? "The Cutie And the Boxer". Dentre todos os que vi desta categoria, tenho que confessar que este foi o que mais me atraiu. Sua simplicidade é fascinante, além de ser eficaz no retrato que pretende tecer.

MELHOR FOTOGRAFIA:

QUEM GANHA? "O Grande Mestre". Wong Kar Wai sempre tem preferência neste quesito técnico. Ainda mais nesta edição do Oscar que, ao que tudo indica, será mais dispersa em seus vencedores.

QUEM DEVERIA GANHAR? Não conferi o longa de Kar Wai ainda, por isso posso estar cometendo uma injustiça, mas daria o prêmio a "Nebraska" pela nostalgia evocada pelo preto e branco dos planos.

MELHOR FIGURINO:

QUEM GANHA? "O Grande Gatsby". Mais uma vez aposto na dispersão dos vencedores, ainda mais se tratando de um filme tão comentado no ano e esnobado na maioria das demais categorias da premiação.

QUEM DEVERIA GANHAR? "12 Anos de Escravidão".

MELHOR MONTAGEM:

QUEM GANHA? "Clube de Compras Dallas". A montagem é fluída, cativante e estabelece uma excelente evolução do personagem.

QUEM DEVERIA GANHAR? "Gravidade". Opção puramente particular. Sempre fui adepto de planos mais longos e cortes espaçados e precisos. E este filme os têm da forma mais brilhante.

MELHOR MAQUIAGEM:

QUEM GANHA? "Clube de Compras Dallas".

QUEM DEVERIA GANHAR? "Clube de Compras Dallas".

MELHOR TRILHA SONORA:

QUEM GANHA? "A Menina que Roubava Livros"

QUEM DEVERIA GANHAR? "Ela".

MELHOR DESIGN:

QUEM GANHA? "12 Anos de Escravidão"

QUEM DEVERIA GANHAR? "12 Anos de Escravidão".

MELHOR EDIÇÃO DE SOM:

QUEM GANHA? "O Hobbit". Mais uma vez, consolação.

QUEM DEVERIA GANHAR? "O Hobbit". Tecnicamente, o filme é admirável e impecável. Surpreendente ter sido nomeado a tão poucos prêmios técnicos.

MELHOR MIXAGEM DE SOM:

QUEM GANHA? "O Hobbit". A sequência da voz do dragão é impressionante e arrepiante.

QUEM DEVERIA GANHAR? "O Hobbit".

MELHORES EFEITOS VISUAIS:

QUEM GANHA? "O Hobbit".

QUEM DEVERIA GANHAR? "O Hobbit".

MELHOR CURTA DE DOCUMENTÁRIO:

QUEM GANHA? "Prison Terminal"

QUEM DEVERIA GANHAR? Não assisti a nenhuma dos indicados portanto, não posso opinar.

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO:

QUEM GANHA? "Get a Horse"

QUEM DEVERIA GANHAR? Como na categoria acima, não assisti a nenhum dos indicados, portanto me abstenho. 

Cinefilia 25: O Cavalo de Turim

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Postado por Selton Dutra Zen 2 comentários


Em plena temporada de premiações, este meu post pode soar destoante da massa de blogueiros e críticos, que concentram suas atenções nos Academy Awards. O fato é que apenas ontem, adentrando a madrugada, tive acesso ao filme que marcou a aposentadoria de um dos mais notórios cineastas húngaros da história. Aclamado por suas narrativas nada convencionais, Béla Tarr fechou sua filmografia e iniciou seu ostracismo com “O Cavalo de Turim” (2011). Se por um lado é lastimável que a carreira de cineasta tão impecável tenha se findado, por outro é louvável que seu último trabalho tenha fechado sua obra da forma mais suprema e inexorável possível. E é justamente por isso que não poderia deixar a chance de discutir um filme tão complexo (e ao mesmo tempo simples) quanto este, passar. “O Cavalo de Turim” não apenas é a obra-prima máxima e o apogeu da carreira de Tarr, como também é uma das maiores conquistas do cinema nesta década de 2010.

Em 1889, na localidade de Turim, o filósofo Friedrich Nietzsche luta contra o dono de um cavalo que açoita o animal sem controle. Se desgarrando do animal que abraçava tentando apartar a fúria do camponês, Nietzsche cai e após o trauma não recupera mais sua sanidade – permanecendo sob os cuidados de sua mãe e irmã até falecer em 1900. Após os créditos de abertura, há um prólogo narrado, ainda com a tela em breu, contando o curioso fim de um dos mais importantes filósofos da humanidade. O que poucos se perguntavam nesta estória irônica e trágica – e assunto do qual Tarr decidiu por tratar neste seu longa – é: “Do Cavalo... nada sabemos”.

Vemos, então, o plano de abertura magistral que o diretor reservara para o início da projeção e que acabara por dispensar toda e qualquer explicação conveniente que poderia ser dada acerca de sua premissa: ao acompanhar o caminho de volta para casa de um velho camponês sobre uma carroça, sendo puxada por apenas um cavalo trôpego, percebemos que o que estamos prestes a ver em nada se refere ao filósofo da introdução. Ele é apenas uma válvula propulsora para que o cineasta aborde e divague sobre o corriqueiro e o que muitos esnobam sem se preocupar. Iremos acompanhar a trajetória do cavalo e de seus donos.

Se a própria pretensão de Béla foge do habitual ponto comum de muitos de seus colegas de profissão, sua narrativa é mais ousada e incomum ainda, mesmo que mantenha seu estilo narrativo fiel ao de suas obras anteriores. Ao longo de 147 minutos, o espectador será defrontado com o diário da vida difícil de um pai e uma filha lutando para sobreviver no campo, em meio a uma temporal que castiga a região. A decupagem da situação, porém, leva ao pé da letra o sinônimo da palavra “diário”. Num período de seis dias somos testemunhas diretas da dor e da solidão da família em meio à natureza. A mesma que provém alimento e vida pode arruiná-la sem esforço. De início, a abordagem pode se assemelhar à representação de um conterrâneo seu, Michael Haneke. A diferença primordial entre Haneke e Tarr surge quando o primeiro narra sem opinar, enquanto o segundo é narrador onisciente durante toda a projeção. O cineasta se utiliza da reclusão da dupla para divagar acerca da relação de repressão patriarcal e a amargura de uma vida difícil. Em dado momento do filme, a filha arruma as malas e guarda, junto às roupas, o retrato de uma mulher que certamente foi sua mãe – o que ressalta a sensação de que um dia a família já foi feliz e aumenta a dor que sentimos pela decadência da instituição. Além do mais, a visão machista de mundo domina da primeira à última cena (perfeitamente contextualizada ao local e tempo nos quais decorrem a narrativa) da projeção e se representa na figura do pai que, tendo seu braço direito paralisado, obriga a filha a realizar tarefas que competiam a sua própria figura paterna, como a proteção de suas terras contra invasores e o tratamento do cavalo – isso se ignorarmos o modo como a mulher é tratada como enfermeira de um homem que ainda não está inválido.



O primeiro dia se inicia diretamente com a volta do patriarca para sua humilde casa isolada de tudo e todos. Ele e sua filha guardam o cavalo na estrebaria e entram em casa para se abrigar do vento forte. O homem se deita para descansar (já que, além de parcialmente paralisado, sofre de terríveis crises de tosse) enquanto sua filha prepara o almoço. O cardápio do dia (e das próximas semanas) se resume a batatas cozidas. Após dispor o almoço na panela com água fervente, a garota se senta à janela e observa o vento que castiga sua propriedade. O vento é fonte de dor não apenas por aplacar toda a colheita da família ou castigar suas terras, mas também por mantê-los reféns de algo imprevisível. De nada adianta lutar, pois suas chances contra a natureza são nulas. Dessa forma, basta observar a própria decadência – sua escassez de alimento e mantimentos – através da janela do cômodo.

Quando as batatas já estão cozidas, a garota chama seu pai e o almoço se dá de forma rancorosa, decorada e rítmica. Ambos enojados pela rotina e impacientes consigo mesmos. Durante o resto do dia, a rotina não iria variar muito a não ser pelo corte de lenha ou por trabalhos pontuais.

Nos dias seguintes, passamos a observar as mesmas tarefas sob pontos de vista variados. Se no primeiro dia acompanhávamos toda a ação pelo olhar do pai, no segundo, seguimos sua filha – desta vez desde quando acorda até se deitar. O jogo fotográfico feito para esta representação é brilhante. Através de discretas mudanças de ângulos, passamos a imergir no psicológico da outra parte envolvida na estória. Digo psicológico porque, apesar de extremamente silencioso (ao todo, deve haver umas 5 ou 6 páginas de diálogos – em termos roteirísticos), há muito o que se explorar em cada uma das duas figuras deste filme. Juntas, representam o modo como a passagem do tempo pode ser dolorida e a rotina de sua decorrência, assassina. Para o homem, não há mais muito tempo restante. É doente e brevemente incapaz. Para sua filha, porém, há uma vida pela frente. O homem se angustia pela vida que ficou para trás e que jamais voltará, a mulher sofre pelo futuro brilhante que talvez não chegue a ter.


O elemento crucial do drama, dessa forma, se personifica na consequência da monótona passagem dos dias (agravado e desencadeado pela tempestade que sitia a dupla): a rotina. Ela corrói os personagens os transformando em pessoas mesquinhas, ingratas pelo que tem e rancorosas. Pouco a pouco, enquanto os dias se passam e ambos continuam comendo as batatas cozidas no almoço, pai e filha vão se definhando e perdendo seu elo familiar. A rotina trouxe a mecanicidade para um ambiente já mecânico – os afazeres do campo, o trabalho que se inicia com o nascer do sol. Para ampliar a sensação de deslocamento e monotonia, a fotografia magistral (que faz seu contemporâneo “A Fita Branca” (2011) parecer filmagem de criança) cuida de criar uma ambientação impecável para o enegrecimento do cotidiano. A parca iluminação traz um breu inquebrantável à noite, que a acaba transformando em um instrumento mais opressor que o próprio dia com sua tempestade. Além do mais, a câmera flutua pelo cenário, pautada pela direção endeusável de Tarr, que constrói sua abordagem basicamente sobre planos-sequência longuíssimos e de um rigor técnico incorruptível.

Há de se levar em conta também a plástica sonora que é de uma inteligência sem par. A mixagem do som recorre ao ruído contínuo e ininterrupto do vento, adquirindo uma espécie de loop, o colocando como um coadjuvante indesejável na estória. A trilha sonora, por sua vez, minimalista e propositalmente repetitiva é empregada nos mais oportunos e inspirados momentos, engrandecendo não só o objetivo do cineasta, mas também a beleza da imagem.

Se transpusermos essa temática para o ambiente urbano, inevitavelmente iremos nos deparar com outra obra-prima e excelência no assunto, “O Sétimo Continente” (1989), de Michael Haneke, o que apenas corrobora para uma comparação mais assídua entre os dois diretores. Mas desta vez há uma dualidade na situação. Haneke estreou sua carreira em longas metragens com este filme de 89, enquanto Tarr finaliza sua obra com “O Cavalo de Turim”. Ambos são filmes tratantes do mesmo tema, com uma abordagem lenta e calculista similar. O que diferencia ideologicamente os dois exemplares é que enquanto Haneke deixa a cargo do espectador fundamentar sua teoria sobre o desastre iminente, Tarr aborda um desastre (porque este que está por vir e não é mostrado pode ser considerado inevitável) por um objetivo mais elaborado. “O Cavalo de Turim”, sob um olhar mais amplo e contextualizado, é o espelho da própria vida do cineasta. A obra divaga sobre o tempo. Tempo este que deve afligir em muito um homem com uma bagagem de vida imensa e uma obra cinematográfica igualmente considerável. Assim como Bergman, Tarr deve estar passando por uma crise de idade avançada e, como seu último projeto, nada melhor que deixar arquivado nas imagens sua visão de mundo e de vida. Como dizia Godard quando falava do gênio sueco: “...para Bergman, escrever é fazer perguntas e filmar é responde-las.” Acredito que a intenção de Béla tenha sido equivalente. Estamos diante de uma questão muito maior do que conseguimos responder. Foge de nossa alçada. Mais vale encararmos obras de arte como esta e esperarmos – assim como Bergman e Tarr – encontrar uma resposta plausível. Com essa responsabilidade em mãos, não havia filme mais oportuno para o cineasta deixar sua profissão... legando sua vida exposta em sua obra e tentando solucionar um dos mais filosóficos e insolúveis questionamentos que se possa fazer. 


372. Only God Forgives

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 0 comentários


(Muito bom)

Para início de conversa, devo satisfações a todos os leitores recorrentes que notaram meu gigante hiato de quase 6 meses neste blog. Como alguns devem saber, além das análises fílmicas, sou universitário e estagio na própria universidade. A carga horária destas atividades requer muito tempo livre e, nos momentos de descanso, geralmente não tenho inspiração para escrever os textos regulares do C de Cinema pois o cansaço é muito grande. Felizmente, àqueles que notaram minha ausência, estou em período de férias e com uma disponibilidade bem maior de horário para me dedicar a esta página. Mesmo com meu afastamento, a ideia de encerrar as atividades deste blog nunca passaram pela minha cabeça. Portanto, se esta situação voltar a se repetir de tempos em tempos, saibam que esta se dá por força externa, não por vontade própria.

Dito isso, nestes últimos dias venho conferindo os filmes lançados comercialmente neste ano de 2013. Dentre diversas sessões - algumas ótimas ("O Passado", "O Hobbit", "Capitão Phillips"...) e outras nem tão boas assim ("Machete Kills", "Um Estranho no Lago"...) - o novo filme de Nicolas Winding Refn foi o que mais me chamou a atenção. Não necessariamente por sua qualidade (embora seja um dos grandes filmes do ano), mas pela aura mística e enigmática que banha cada um dos quadros da projeção. Vale avisar aos navegantes que pretendam embarcar neste sonho gore e obscuro, que talvez "Only God Forgives" não agrade a todos da mesma forma que o filme anterior do diretor, "Drive".

Novamente trabalhando com Ryan Gosling, o diretor nos submerge no submundo tailandês, onde Gosling é um traficante que tem seu irmão morto pelo chefe da polícia local. Sua família então o obriga a se lançar em uma caçada em busca de vingança. Embora se assemelhe muito a uma trama popular e genérica de um filme policial qualquer, o tratamento dado por Refn à estória foge de qualquer padrão estabelecido pelo gênero. 

A abordagem continua a mesma de seu filme anterior (o que torna comparações inevitáveis), onde se privilegia, acima do desenvolvimento da narrativa violenta, o que se possa extrair desta violência. Todas as consequências e pormenores ocasionados por um ato violento são decupados. Se em "Drive" há um equilíbrio brilhante entre a glamourização estética e a popularidade da produção, em "Only God Forgives" qualquer indício de caráter popular na trama se perde por completo. Este longa é bem mais underground e alternativo que "Drive". A começar pela estética extremista. O diretor parece privilegiar acima de tudo o silêncio generalizado durante a projeção. O som ambiente é apenas entrecortado pela trilha sonora - excelente, por sinal - já que os diálogos acontecem apenas quando estritamente necessários. O próprio protagonista tem sua primeira linha de diálogo em mais de 20 minutos de projeção. 

E enquanto o silêncio domina o som, a belíssima fotografia toma conta dos enquadramentos metódicos. O contraste entre vermelho e azul extremo e a parca iluminação criam ambientes tão claustrofóbicos e angustiantes que mais se aproximam de sonhos perturbadores. Esta abordagem imagética talvez seja a mais acertada por parte de Refn, uma vez que contribui com sua montagem um tanto psicodélica, a qual tenta estabelecer um mundo onde a fantasia gira em torno da realidade (ou vice e versa), ao entrecortar cenas palpáveis e reais com a imaginação e onirismo do protagonista (vide a primeira cena sexual de Gosling, onde este tenta se excitar com uma prostituta em sua frente, mas é perturbado pela aparição constante e assombrosa do vilão máximo do filme). 

Seja pela montagem lenta, pela evolução pausada ou mesmo pela precisão dos enquadramentos, esta talvez seja a obra mais kubrickiana que Refn tenha realizado em sua carreira. Diversos planos são homenagens latentes ao mestre do cinema. Vale ressaltar a sequência do karaokê no restaurante, que soa como uma paráfrase atualizada das sequências em que Alex e sua gangue se drogam com Moloko Vellocet, na obra-prima da ultra-violência, "Laranja Mecânica"

Mas a questão que se deve indagar no momento é: até que ponto a técnica admirável e a lentidão narrativa são sinônimos de uma abordagem estilizada e inteligente e onde começam a mascarar uma fragilidade e superficialidade do roteiro e da própria direção? Embora admire deveras a coragem do realizador em se aventurar em um projeto tão alternativo em um mercado cinematográfico tão alienado e conservador, há de se levar em conta que, por ventura, a opção não tenha sido tanto uma opção, mas sim a única alternativa de levar o projeto à frente. Uma vez que este tipo de estética exige muito mais tempo para o desenrolar da trama, seria a melhor solução para uma estória rasa, sem conteúdo sequer para um média-metragem, certo? Pois bem, à interpretação de alguns é isto que pode aparentar. Pessoalmente, não concordo com a descrição, mas é fato que muitas das cenas de "Only God Forgives" poderiam, sim, ser cortadas ou mesmo reduzidas pela metade em sua duração sem perda nenhuma de significado.

Por fim, dotado de um encerramento completamente perturbador e sanguinolento, este longa merece aplausos pela ousadia, mas ressalvas pela ideologia de seu diretor. Certamente dividirá a opinião da crítica e do público, mas sou parcial a Refn. Este dinamarquês pode facilmente iniciar uma nova onda de filmes policiais, com um pouco mais de conteúdo, e na atual situação de nosso cinema, não podemos reclamar de uma mudança nestes padrões. Com suas verborragias à parte, "Only God Forgives" cumpre o que promete e faz refletir pelas suas cenas de violência e pela perturbadora relação mãe e filho. Apesar de ter uma outra visão sobre o filme, vou encerrar este texto parafraseando Marcelo Hessel, em sua crítica do filme ao Omelete: "Poucas vezes desde a sanguinolenta peça de Sófocles de 427 a.C. um complexo de Édipo resultou em tanta carnificina quanto em "Apenas Deus Perdoa" [...] Porque tem gente que interpreta aquela história de "voltar ao ventre" de forma bastante literal."

Gênero: Ação
Duração: 89 min.
Ano: 2013

371. Post Tenebras Lux

domingo, 4 de agosto de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 0 comentários


(Excelente)

P.S: Este post contém spoilers!

Em 2010, "Tio Boonmee Que Pode Recordar Sua Vidas Passadas" ganhara a Palma de Ouro em Cannes, prêmio máximo do festival. O que não se revelou nenhuma surpresa, já que o filme de Apichatpong parecia ter saído do forno sob medida e com o único objetivo de encabeçar a lista dos vencedores de grandes festivais de arte. Dois anos mais tarde, em 2012, "Post Tenebras Lux" - mais novo filme do mexicano Carlos Reygadas - também concorreu à Palma de Ouro, porém não levou o prêmio (que ficou para a obra-prima "Amour"). Apesar de bem inferior ao filme vencedor, de Haneke, "Post Tenebras Lux" se sobressai ao péssimo "Tio Boonmee..." em todos os aspectos, sob inevitável comparação. Inevitável pois ambos se apoderam de abordagens muito semelhantes e concorreram ao mesmo prêmio, mesmo que em anos diferentes. Acontece que este filme de Reygadas é tudo o que "Tio Boonmee..." quis ser e não conseguiu.

Com uma estética muito mais sinestésica que narrativa, se privilegia aqui as imagens, o som e toda a catarse que disso se possa extrair. O caráter experimental da fotografia e a truncada montagem fazem com que a trama deste projeto seja muito difícil de se explicar, porém fácil de se interpretar. À título de curiosidade, penso em "Post Tenebras Lux" como um retrato pessimista da instituição familiar. Há, certamente, uma linha central de narrativa. Esta talvez se concentre na decadência de uma família sem sobrenome, onde Juan é o pai, Natalia é a mãe, Rut a filha criança e Eleazar, o filho também pequeno. Não tarda para que a suposta felicidade demonstrada pelo casal seja abalada por Juan, evidentemente problemático e mórbido irritado. A família vive, então, em uma montanha russa que parece apenas descer (de mau a pior), conforme o tempo passa. 

Acima de tudo, há uma divagação sobre a luta do bem contra o mal. O bem seriam os filhos que mantém o casal unido, a música que acalenta o sofrimento e a natureza que envolve a vida da família. Não é à toa que se retiram da cidade para viverem ao lado de uma floresta. Contudo, há o mal. O mal através do vício em pornografia, dos vizinhos e conhecidos que insistem em piorar a situação da família e também a hipocrisia que envolve todos os personagens do filme. A hipocrisia dos parentes para com a família ou mesmo do próprio casal. Não há espaço para diálogo e tudo parece perfeitamente bem. Debaixo do tapete, porém, existem muitos assuntos inacabados e angústias a serem desabafadas. Mas a relação se torna emocionalmente frígida, vira mecânica. Agora só reina o sexo como instinto animal. Enxergando a decadência iminente de seu casamento, Juan e Natalia buscam no sexo o elemento que falta em seu dia a dia. Nada acontece e a queda é ainda maior. Juan sabe que a culpa é sua e passa a desenvolver uma frustração latente que se transforma em raiva. Como forma de extravasar, desconta essa raiva nos indefesos: os cachorros. Constantemente os cães aparecem como bodes-expiatórios para os seres-humanos. Reygadas não exita em expor cães sendo atropelados, chutados e espancados, servindo sempre como saco de pancadas de uma sociedade mais hipócrita que a própria rotina da família.

Em "Post Tenebras Lux", só se salvam da podridão humana o casal de crianças, que enxerga o mundo com uma vívida inocência. Porém, até este raio de esperança é ofuscado pela pessimista direção do mexicano, quando filma a sequência de abertura do projeto, o sonho de Rut.

Abrir o filme com esta cena foi uma acertada escolha da direção, já que apresenta o tom sombrio e experimental que perdurará durante toda a projeção da melhor forma possível. O sonho em questão é uma metáfora à perda da inocência de uma garota que nota que a relação de seus pais não está tão boa assim. E se desespera. Sob a luz do dia, a garota se encanta com a natureza e os animais - representando a inocência -, porém não tarda para que a noite caia e a tempestade se aproxime, trazendo junto a sensação de abandono e solidão. A tela se inunda de escuridão e a garota clama por seus pais, sem ser atendida. Toda esta sequência de quase 10 minutos é um exemplo magistral do talento de um diretor na administração de cenas. É admirável como a escuridão surge de forma tão delicada, misteriosa e quando menos se espera, está por toda a parte. A edição de som também é impecável e afronta o espectador com o assustador ruídos dos trovões no céu escuro. 

Dessa forma, se inicia a brincadeira de espaço-tempo promovida pelo filme. A sensação de aparente linearidade engana o espectador que se atrela muito a uma situação específica. A montagem avança e regride no tempo de forma discreta e prática. Assim, para conferir um filme tão enigmático como "Post Tenebras Lux", deve-se, primeiramente, abandonar todas as concessões de narrativa convencional que se tenha. E talvez este seja o motivo de muitos espectadores se sentirem confusos durante as quase duas horas de projeção. Uma prova concreta (e talvez o elemento que mais confunda o público) é o espaço dado aos coadjuvantes na narrativa. Enquanto, em um filme convencional, os coadjuvantes sempre ficariam orbitando ao redor dos protagonistas e sendo inseridos apenas quando deveriam influenciar a trama principal ou acrescentar algo mais ao filme (como deve acontecer em uma linguagem usual), aqui as figuras de segundo plano têm vida própria e independente. É como se "Post Tenebras Lux" se lançasse muito mais no universo dos coadjuvantes que um filme normal - claro que se utilizando desse recurso para denunciar novamente as mazelas da família. Surge, assim, uma teia que abrange e critica muito mais que um grupo de quatro pessoas, mas uma sociedade inteira, o que é muito mais universal e atemporal.

Já em seu encerramento, o mal vence o bem. Um dos empregados da família os rouba e seu ajudante acaba por deixar Juan de cama, com um tiro em suas costas. Não demora para que este morra. O assassino, então, é representado como o mal supremo, é literalmente encarado como um demônio. Quando volta para sua família (na forma de uma figura diabólica) e encontra sua esposa com um amante, vê como sua vida perdeu o rumo (algo que conversa com a história da família protagonista) e acaba por se suicidar de uma forma tão onírica e surreal quanto o sonho da cena de abertura. A natureza se fecha e se entristece, o que se faz notar na cena em que diversas árvores são cortadas na floresta e a chuva começa. Esta mesma chuva que acompanha todos os personagens em seus momentos mais angustiados e desesperados. Sempre que uma discussão se inicia ou há um sentimento corroendo a alma, a chuva vem para envolver a cena em obscuridade.

E através de um túnel das mais diversas sensações (desde asco até relaxamento), Carlos Reygadas nos conduz em um tour de force altamente considerável. Optando por cortes lentos e longos planos sequência, o mexicano surge como o oposto de Terrence Malick, dentro do cinema-contemplação. Enquanto Malick segue a linha de belas imagens com narração lírica, Reygadas prefere o mais simples e obscuro: a beleza natural e um silêncio reflexivo. A fotografia minuciosa cuida para que a câmera não apenas filme, mas flutue nas locações. E a distorção e desfoque na extremidade das cenas em céu aberto ainda me permanece sem explicação, mas virou curiosidade a ser melhor analisada em uma revisão.

Finalmente, com esta visão obscura da vida, "Post Tenebras Lux" conduz o espectador gradativamente a um mundo real, que todos conhecemos, mas tratado de forma fabulesca e contemplativa. Este é, com certeza, um daqueles exemplos de cinema para se sentir, não necessariamente entender. Sou adepto de Buñuel e Lynch, onde se privilegia o sentir. E estou certo de que Carlos Reygadas mexeu com meus sentidos e aguçou minha curiosidade.

Gênero: Drama
Duração: 115 min.
Ano: 2012

370. Segredos de Sangue

domingo, 28 de julho de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários


(Mediano)

Chan-wook está tentando se "norte-americanizar". Abandonar sua terra e colocar os pés em Hollywood. Felizmente, para o cineasta já consolidado na Coréia do Sul, mudar de ares não significa abandonar suas raízes. Sua abordagem recorrente (sempre ousada e brutal) continua neste seu primeiro exemplar hollywoodiano. Mas, claro, em escala reduzida... até demais.

Mia Wasikowska é India Stoker, uma garota à beira da maioridade descobrindo sua sexualidade e instinto violento, após a morte de seu pai. Regida por uma mãe distante e alienada, Evelyn (Nicole Kidman), se encontra ameaçada pela presença cativante e letal de seu tio, Charlie. Um drama de potencial melodramático, se não fosse levado às telas por Chan-wook Park que, como bom coreano, não hesita em adicionar uma morbidade crescente ao longa. Mas talvez Park tenha se esquecido de que produz, agora, para o comércio hollwoodiano, e que o caráter liberal e extremista de seu cinema anterior não mais pode ser empregado. "Segredos de Sangue" provavelmente é marco zero para um novo cinema do diretor: mais implícito e contido, mais hipócrita. Não pode mais impactar com tramas mirabolantes como na inexorável trilogia da vingança. Tampouco chocar como "Oldboy". Dessa forma, visivelmente as intenções do sul coreano são boicotadas nesta película. "Segredos de Sangue" para sempre na beira do rio, quando o assunto é polêmica. Molha os pés mas não tem coragem de atravessar. O que, inclusive, soa estranho aos habituados a sua cinematografia. 

Claro que a culpa não foi de Chan-wook, mas certamente de seus produtores. Agora, se há algo a destacar como demérito do próprio cineasta é sua inabilidade ao explorar seus personagens. Supostamente tentando aprofundar diversas camadas destes, o diretor se revela ineficiente em uma construção mais concisa e verossímil de suas criações. Até porque, pelo menos ao contato que tive com o diretor, não lhe interessa muito o aprofundamento dos mesmos, mas apenas usá-los como objetos para extrair o máximo de emoções do espectador. O problema é que "Segredos de Sangue", como não conta com tantas emoções únicas e chocantes, necessita recorrer não apenas à imagem, mas aos personagens, para se sustentar. E o problema reside aí. A mais complexa talvez seja India, com a profundidade de um pires. Evelyn, então, atinge o cúmulo da má exploração. Mais se assemelha a uma figura esculpida em cera que um ser humano propriamente dito. O próprio personagem do tio, que leva a trama à frente e esconde um segredo, não consegue passar de mais uma alegoria antipática em tela. E o problema é agravado já que os primeiros 30 minutos de filme, até a trama se desenrolar mais um nível, se prende demais e tenta cativar com estes mesmos personagens. O que resulta, então, em uma sequência de cenas, em sua maioria, dispensáveis. 

Não obstante, as atuações não colaboram em nada para que o estigma de personagens-bonecos seja quebrado. Kidman está em uma de suas piores performances. Mais fria e inexpressiva, impossível. Matthew Goode (no papel do tio) deveria cativar como conquistador, mas só consegue lançar olhares baratos e escandalosos, o que me faz pensar que Evelyn - que demora bastante para notar que seu amado parceiro não é tão devoto assim - tenha alguma disfunção psicológica. E isso até justificaria a pobreza de sua performance e personagem. Por fim, Mia Wasikowska, a protagonista, soa insossa, porém menos inexpressiva que seus companheiros de cena. 

Contudo, em despeito de tantos pontos negativos, principalmente no que tange à submissão de um dos mais prolíferos diretores coreanos aos padrões de Hollywood, há algo que Chan-wook não perdeu e o emprega da melhor forma possível: sua montagem dinâmica, divertida e única. Os flashbacks extremamente bem costurados à trama se unem a uma montagem dialética, enquanto amarrados por uma trilha sonora excepcional do igualmente soberbo Clint Mansell. Há o humor ácido costumeiro e, como sempre, a montagem se torna um personagem independente que, no caso deste filme, soa mais interessante que qualquer outro elemento em tela e é responsável pelo real êxito da produção. 

Isto, aliado à uma ótima fotografia, cuida de tornar "Segredos de Sangue" uma obra com cheiro e alma do bom e velho Chan-wook Park, ainda que muito boicotado. E, com isso, a incursão do realizador nos E.U.A pode representar duas coisas: ou a queda de um excelente cineasta, ou um novo sopro de originalidade ao cinema hollywoodiano. Como "Segredos de Sangue" permanece em cima do muro, espero que a segunda opção se concretize. 

Gênero: Drama/Suspense
Duração: 98 min.
Ano: 2013