367. Um Alguém Apaixonado

segunda-feira, 1 de abril de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários


(Obra-prima)

2012 sem dúvidas foi um dos melhores anos cinematográficos do século XXI. Tivemos Haneke, Tarantino e Wes Anderson lançando alguns de seus melhores trabalhos em anos. E com Kiarostami não foi diferente. "Um Alguém Apaixonado" é uma obra-prima completa, sensorial e reflexiva. Mesmo que a reflexão parta da experiência do próprio espectador, e não do filme em si. 

Abrindo com uma sequência de 15 minutos em um bar de alta classe, Kiarostami logo nos revela que seu mais novo longa irá seguir a sua linha habitual de cinema: sustentado em diálogos e manejando de forma magistral o ritmo lento. Em muitos aspectos pode-se traçar um paralelo com seu filme anterior, a também obra-prima "Cópia Fiel", por apresentar uma história na qual caímos de paraquedas, nos inserimos no universo conturbado dos personagens e tentamos decifrá-los durante toda a projeção. Mas, principalmente, por apresentar um Abbas saído do Irã, como no filme com Binoche. Porém, ao invés de Itália, temos Japão. Um Japão particular que o diretor engradece em beleza e mistério com sua fotografia deslumbrante. 

Para tanto, somos apresentados à história de... nada. E ao mesmo tempo, tudo. Se de início Abbas parece tentar retratar algumas horas na vida de uma prostituta japonesa que se envolve com um de seus clientes (um idoso aparentemente solitário), logo abre mão de uma narrativa mais substancial para dar lugar a uma estética deslumbrante. Os planos-sequência e as longuíssimas cenas muito bem administradas, acabam sendo um dos maiores charmes do filme. E a ideia de narrar a maior parte dos fatos em tempo real só abrilhantou mais ainda a película. E sorte nossa que Kiarostami sabe, como poucos no cenário atual, nos conservar interesse em assistir quase duas horas banais na vida de uma protagonista infeliz. Afinal, uma proposta dessas (por natureza, muito difícil) já nasce com um pé na cova. 

E talvez o truque para tudo funcionar tenha sido a beleza de sua fotografia. Milimetricamente calculada, faz cada contraste de luz e sombra parecer algo único. Outro destaque também está na montagem, fabulosa, que torna seu esquecimento no Oscar algo imperdoável. A melhor do ano, sem a necessidade de se pensar duas vezes. Ao passo que nos instiga a saber mais, a entrar mais no universo dos personagens, amarra cada corte de cena de forma fabulosa. Além de criar transições de cenas perfeitamente delicadas e homogêneas, para que o clima de contemplação não seja desfeito em momento algum.

Mais um recurso muito utilizado pelo cineasta (e nisto se assemelha a "Gosto de Cereja"), é que os personagens não são levados à fundo, não são aprofundados. Propositalmente. Em nada interessa seus passados, suas vidas, o que importa é apenas o agora. Dessa forma, Abbas na maior parte das falas, se utiliza daquelas que em muito pouco correspondem à história do filme, que em nada são relevantes ou importantes (como o diálogo sobre sopa de camarões ou mesmo sobre o quadro na parede da sala). Apenas assuntos banais, em um momento comum, de pessoas como nós. 

Todavia, não pensem que apenas de estética sobrevive "Like Someone in Love". Nele, há espaço também para sentimentos e divagações (vide a cena da avó da protagonista esperando na praça). O longa nos faz refletir muito sobre nossa própria natureza. Aquela de, em um ato desesperado de solidão, nos apegarmos as outras pessoas e clamarmos por companhia. Ou também que em muito revogamos pessoas queridas e nos apegamos a outras que de certa forma não merecem. Este é o nosso senso de proteção. O personagem do idoso, por exemplo, nos representa. Quando tentamos nos relacionar com alguém e entramos em sua vida numa tentativa de ajudar o próximo e nos ajudar, automaticamente. E é este o ponto chave, acima de tudo. Não acho que haja alguém apaixonado, como o título sugere, mas sim uma relação de cooperação entre duas pessoas. Ambas desoladas, ambas ansiando por outro alguém. Mesmo que durante um pequeno período de tempo ou mesmo que esteja fadado ao final triste. Mas, será que algo assim possui realmente um final?

Gênero: Drama
Duração: 105 min.
Ano: 2012

Cinefilia 23: Pós-Oscar 2013

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 2 comentários


Pois bem, com um leve atraso dos demais blogs e sites de cinema, venho aqui comentar a cerimônia de ontem, do Oscar 2013. Ou devo dizer, do Oscar de erros, do Oscar de absurdos e do Oscar da vergonha?

Lembro de ter escrito em meu comentário sobre os indicados a 85ª cerimônia do Academy Awards que os selecionados tinham sido entusiasmantes, inovadores e promissores. Registrei também que, depois de muito tempo, minha ansiedade e vibração pelo Oscar havia voltado. Infelizmente, o que a Academia acertou nas indicações, errou nos premiados. Com exceção de alguns óbvios e merecidos vencedores ("Amor" por filme estrangeiro e "A Hora Mais Escura" por edição de som - mesmo que sob inusitado empate), esta edição da celebração entregou estatuetas a filmes que nem em mil anos e uma galáxia muito, muito distante mereciam ser honrados. Foi o caso de absurdos como "Os Miseráveis" angariar mixagem de som e maquiagem e "Valente" ganhar melhor animação. Aliás, se o prêmio concedido à "Valente" não servir como prova cabal de que os premiados desta noite foram covardes, não sei o que mais pode ser.

A catástrofe não para por ai. Apesar de previsível, a vitória de Jennifer Lawrence sobre Emmanuelle Riva soou como uma afronta a nós, cinéfilos. Não só pelo fato de Lawrence estar insossa no filme pelo qual foi indicada, mas principalmente pelo histórico que Riva possui. A começar pela sua idade. Jennifer é nova, ganhou um Oscar e terá muitas outras chances de ser indicada ao prêmio, ainda mais sendo querida pela Academia. Riva não. Há possibilidades de que - dada sua idade - não consiga ser indicada mais uma vez e morrerá sem nenhuma estatueta, mesmo sendo uma atriz fabulosa e inexorável. Que belo presente de aniversário à atriz, seria sua vitória.

Porém, este absurdo parece minúsculo perto da imagem de Ang Lee recebendo o troféu de melhor diretor. Melhor diretor?! Melhor diretor do pior filme dentre os 9 indicados principais?! Além de ser surpreendente, foi indignante. 

Fora isso, a cerimônia em si também foi um desastre. Logo nos primeiros minutos de apresentação, o comediante e apresentador Seth MacFarlane se reuniu a uma conferencia em vídeo com um dos atores da série "Star Trek", o qual brincava dizendo que Seth seria considerado o pior apresentador da história do Oscar. Pena que a brincadeira tenha se concretizado. Não o considero o pior, mas um dos. Suas piadas foram falhas, aborrecidas e poucas tiveram um nível de criatividade aceitável. Em diversos momentos, provocou um descontentamento visível na platéia. Outro equívoco foi na escalação dos astros que entregariam prêmios. Claro que disto, excluo estrelas como Jack Nicholson ou Meryl Streep que sempre estão bem, mas Jennifer Lawrence entregando prêmios parecendo estar com diarreia crônica no palco foi uma das maiores vergonhas da noite. Beirava o bizarro. Essa gafe só perdeu para uma maior ainda que - pasmem! - também foi protagonizada por ela: seu tombo ao subir as escadas para o prêmio de melhor atriz. Confesso que não contive as risadas. 

De qualquer forma, seria ignorância minha rejeitar os acertos da noite. A produção do show foi excepcional. E quando em refiro a produção, digo criatividade e qualidade de palco (que estava lindo e encantador). O In Momoriam também foi emocionante. Michelle Obama anunciando o vencedor principal da noite foi surpreendente. E o discurso de Daniel Day-Lewis foi um dos momentos mais divertidos de toda a noite.

Assim, a 85ª entrega do Oscar foi uma das edições com os concorrentes mais inspirados dos últimos anos (nos parâmetros de Oscar, claro) e com os piores vencedores de tempos.

A lista dos ganhadores, pelo site Cinema em Cena: