Cinefilia 24: O Cékulo do Kynema

terça-feira, 25 de junho de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 1 comentários

Logo no início deste ano, ao ingressar na Universidade, decidi por conhecer mais a fundo a biblioteca do Campus. Como cinéfilo doente, o primeiro foco de pesquisas de acervo foi cinema. Entre uma pesquisa e outra, acabei encontrando o corredor específico de audiovisuais. E em meio a uma infinidade de títulos preciosos, um me chamou particularmente a atenção. Era um exemplar antigo, menor (em tamanho e quantidade de cópias) e mal conservado. Daqueles onde uma fita adesiva gruda a lombada, para as páginas não caírem, e o leitor precisa fazer malabarismo para, quando ler, não perder as folhas. É interessante, aliás, que um livro disponibilizado na biblioteca central de uma das maiores universidades da região esteja neste estado de conservação, mas isto é tópico para outras linhas de discussão...

Pois bem, quando retirei o livro da estante, notei que se tratava de uma cópia de "O Século do Cinema", de Glauber Rocha, cineasta que admiro muito. Folheando o livro, um subtítulo sugou minha curiosidade: "Você gosta de Jean-Luc Godard? (Se não, está por fora)." Acontece que eu não gosto de Godard (nem tanto por sua fase Nouvelle-vagueana, mas pelos rumos que sua obra adquiriu após a década de 60) e me interessei pelos motivos de título tão categórico e inquisitivo quanto esse. Apesar de ter conhecimento do fanatismo de Rocha pelo cineasta francês, continuei curioso. E meu interesse só foi aguçado pelos textos envolvendo Chaplin, Lang, Kubrick, etc, que também constavam na edição... acabei levando-o. 

O livro é uma coletânea de textos e artigos do cineasta nacional acerca de cinema e de sua carreira, como crítico, jornalista e cineasta. E assim que comecei a lê-lo, notei algo fantástico. Boa parte do livro contava com rabiscos à lápis sobre parágrafos e ideias de Glauber, além de destaques aos trechos mais relevantes a pessoa que o havia lido antes de mim e decidiu deixar arquivado nas páginas amareladas suas impressões. Uma atitude bem romântica, vale citar. E apaixonada, já que os trechos sempre se referiam a belas citações do autor  a grandes diretores. Não tardou, porém, para que eu sentisse um desânimo tomando conta do antigo leitor do livro. Suas anotações eram cada vez mais rarefeitas e desinspiradas. Sua alegria havia acabado. Não era para menos, "O Século do Cinema" decaia a cada nova página.

Se, de início, os textos me pareceram extremamente relevantes e interessantes, logo Glauber vai exprimindo tudo de mais irritante e egocêntrico que guardou até então. Seus textos rapidamente deixaram de lado a informação e a opinião, e se tornaram nada mais que um amontoado de parágrafos prepotentes e excessivamente rebuscados, como se o cineasta/autor/crítico tentasse se afirmar a cada nova sentença. E, para mim, não há nada mais enojante que um texto masturbatório (onde, como o próprio nome prediz, serve apenas para o autor se afirmar ante si mesmo). Além de muita falta de confiança, é uma indicação de imaturidade e arrogância sem tamanho. Consequentemente, o nível da coletânea quase negativou. 

"O Cékulo do Kynema" (como o próprio Rocha escreve, numa tentativa de mesclar português e russo - sim, isso é um hábito constante na escrita dele!) é uma obra que não eu indicaria a ninguém, a não ser como teste cabal de paciência e tolerância. Alguns de seus textos até que são relevantes, como sua introdução ao Western, seus encontros com Buñuel, Kazan e Fellini e até mesmo sua crítica sobre a obra-prima esquecida pela maioria dos cinéfilos, "A Cruz de Minha Vida" - que, confesso, nunca havia lido uma resenha sobre. Porém, os bons parágrafos são dissolvidos no mar de verborragia política, literária e filosófica que é acachapada em meio às discussões sobre cinema, sem propósito algum, a não ser servir ao ego do diretor. Há trechos em francês, citações incessantes de Eisenstein e Buñuel, a ausência de distinção entre o lado profissional e pessoal de um artista (ao que parece, Rocha não sabe a diferença) e um desprezo latente a Elia Kazan - coisa que o diretor faz questão de jogar no leitor quantas vezes for necessário. 

E o mais curioso de tudo é que Glauber, na literatura, é a emulação brasileira do próprio Godard, ex-crítico da Cahiers du Cinéma e prepotente sempre que possível. Ao que tudo indica, Rocha ficou muito tempo exposto aos longas do francês e resolveu imitá-lo na vida, mesmo que este não seja um exemplo muito bom de ser humano a se seguir. Felizmente, essa mesma postura não se repete em seu lado realizador de cinema, já que suas obras, mesmo que claramente referenciadas a Godard, há uma mescla perfeita e equilibrada de todos os questionamentos do próprio Glauber sobre política, religiosidade e futuro cinematográfico. Porque, se fosse como no livro... bom, com os parágrafos acima, vocês podem imaginar minha opinião.

E lembram do leitor que rabiscava as páginas do livro? Em pouco mais de 100 páginas, não havia mais sinal de sua existência. Tinha desistido. Talvez não tenha aguentado as metáforas e referências que só o próprio Glauber era apto a entender. No meu caso, atingi a última folha com muito orgulho e mereço uma medalha de honra ao mérito por esse feito de extrema bravura. Ou pelo menos ser poupado de literatura fatigante por um bom tempo.

368. Mamá

terça-feira, 7 de maio de 2013
Postado por Selton Dutra Zen 2 comentários


(Bom)

Há mais de um ano atrás, sob indicação de uma querida e confiável amiga minha, tive contato com um curta curioso. Deveras desconhecido pelo público cinéfilo e médio, era uma surpresa que ainda continuasse no anonimato. Usando e abusando de efeitos práticos, estética obscura e fotografia angustiante, "Mamá", em seus apenas 3 minutos, aterrorizava mais que muito longa de terror dos últimos anos. Pois bem, não demorou muito para que o potencial do curta-metragem fosse garimpado e transformado em longa, pautado pela produção de Guilhermo del Toro e dirigido pelo mesmo diretor do minúsculo filme.

Usando a "trama" (se é que havia uma) do curta como pedra angular, o roteiro expande a narrativa para que a história renda os minutos-padrão de um longa comercial. Agora, somos remetidos à origem das duas meninas protagonistas de "Mamá" original. Órfãs de mãe, as garotinhas são capturadas pelo próprio pai e, após um acidente, se refugiam em uma cabana no meio da floresta. Lá, o pai é morto por uma criatura extra-humana (Mamá) que decide tomar conta das garotas. Acontece, porém, que as meninas são resgatadas da floresta e adotadas por seu tio (junto de sua namorada).  Mamá, naturalmente, volta para resgatar suas amadas "filhas". 

Um dos motivos pelos quais decidi assistir a "Mamá" foi para complementar minha experiência com o curta. Entender um pouco mais daquele flash doentio na vida das duas irmãs. Quem e o que é Mamá? Por que estaria cuidando das duas crianças? Qual a explicação de sua existência? Essas incógnitas, como não poderia deixar de ser, são respondidas de prontidão pelo longa. Até então, era o mínimo a ser feito, já que o motivo da expansão de um filme de 3 minutos para 100 era esse. Contudo, esta mais nova produção de del Toro vai um pouco mais além. Lançando uma homenagem clara aos contos de fada (óbvia influência do produtor), cria uma espécie de jogo de referências e alusões aos mais diversos clássicos infantis - que aqui não soam nada infantis, vale ressaltar. A cabana abandonada na floresta, o "Once upon a time..." na abertura do filme, Mamá se escondendo dentro do guarda-roupas e todo o clima outonal cuidam de evocar uma atmosfera de fábula, há tanto perdida. 

Infelizmente, esses clichês existentes pelas referências aos contos acabam por deixar de ser apenas relacionados às fábulas e passam a contaminar toda a projeção. Alguns sustos são óbvios, algumas reações genéricas e o desenrolar mais típico e banal, impossível. "Mamá" não nos poupa de um desfile de personagens já conhecidos pelo público, com a mesma roupagem de sempre. Há a mulher determinada que luta com todas as suas forças por um amor que descobre ser muito forte ao longo da projeção, há o psicólogo interessado em investigar a história das garotas (abrindo margem para um flashback esclarecedor gritante) e também a parente preconceituosa que sempre chega ao local errado, na hora errada. Não obstante, o longa também aposta em sequências batidas ou, pelo menos, já utilizadas em outros filmes, como a cena do psicólogo na cabana (a luz da câmera fotográfica como iluminação de cena foi empregada recentemente no terror uruguaio "A Casa") e até as próprias gravações das consultas das meninas, também com o psicólogo.

Todavia, mesmo diante de diversos deméritos, gostei do filme. O diretor é hábil ao evocar um clima de constante mistério e costurar as cenas de forma a tornar tudo fluído. Isso, claro, auxiliado pela eficiente fotografia, que acrescenta um tom de obscuridade a mais à trama já macabra, além de optar muitas vezes por travellings de câmera mais fluídos e, bem... flutuantes (literalmente!). Além do mais, o time de atores convence. Chastain, uma das atuais queridinhas do Oscar, está bem, embora nada fagocitável. Assim, quem leva o filme nas costas é a dupla de garotas que encarnam as irmãs protagonistas. O maior destaque mesmo vai para a mais nova, que com alguns de seus olhares e trejeitos, consegue aterrorizar mais que a própria Mamá em si. Suas aparições em cena, confesso, me deixaram mais tensos que as sequências com a própria criatura.

E por falar na criatura, esta talvez seja o maior divisor de águas que se tem sobre este projeto. Enquanto Mamá surge como uma criatura bem genérica em aparência (nada que já não se tenha visto por aí), é nos trejeitos e grunhidos que realmente perturba. Neste quesito, a edição de som merece nota pela mixagem grotesca dos ruídos guturais emitidos pela criatura. Infelizmente, para que eles funcionem integralmente há de se fechar os olhos e apenas imaginar as dimensões da Mamá, pois se você arriscar uma olhada, sua sensação de terror se esvairá. Sua aparência é simplória e seu design preguiçoso e nada criativo. Sorte que até aparecer completamente na película, consigamos absorver toda sua carga fantasmagórica.

Assim, "Mamá" não é uma completa decepção, embora fique muito aquém, seja em qualidade ou impacto de terror, do curta originário. Funciona como passatempo e possui alguns excelentes momentos - inclusive de originalidade, embora isso contradiga um dos parágrafos acima -, mas tenho certeza de que não irá traumatizar tanto quanto os 3 minutos originais. Pelo menos a mim não traumatizou.

Gênero: Terror
Duração: 100 min.
Ano: 2013